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Generalidades

Generalidades

17
Jun20

Do 80 para o 8


Vagueando

 

 

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Almoço num dia de Junho, no Restaurante Bristol, com bom tempo o que em Sintra quer dizer, sem nevoeiro e sem vento. Não se vê uma pessoa ou um carro na estrada da Volta do Duche. 

Regresso sem inspiração e sem gana o que é contra a minha vontade. Nem consigo explicar porquê. Talvez venha para aqui desabafar, meditar, lamentar, buscar, passar o tempo ou, quem sabe, à procura de encontrar uma qualquer motivação ou emoção.

Este novo normal faz-me muito mal, afecta-me a moral.

A falta de vida em Sintra deixa-me triste, a falta de gente aborrece-me, a falta de movimento faz-me sentir morto, a falta de tudo o que mexe deixa-me com stress, a falta de som irrita-me.

Não há quem se me dirija a perguntar como se chega ao Castelo ou ao Palácio, não há quem me pergunte onde comer as melhores queijadas, não há quem me questione onde consegue estacionar o carro, não há quem me diga, mas Sintra é assim todos os dias, não há quem me peça para lhe tirar uma foto (em abono da verdade já era raro por causa da mania das selfies).

Os passeios estão a ficar flácidos porque não são pisados, as escadarias não gostam de ver os seus degraus ao deus dará, os corrimãos querem ser agarrados, os monumentos não têm audiência para contar as suas histórias, as árvores fazem sombra que ninguém aproveita, a água corre pelos riachos sem testemunhas nem árbitros que confirmem que passou por ali, as dobradiças estão desempregadas e em risco de reumatite permanente, as fechaduras estão fartas de estar fechadas, as portas há muito que não se mexem, algumas já estão a engordar, os vidros continuam transparentes mas ninguém vê para dentro ou para fora, os postigos estão fartos de tapar a luz do sol, os tapetes estão fartos de estar enroladas, os capachos sentem-se humilhados por ninguém lhes esfregar os sapatos, os semáforos estão cansados de dar ordem de paragem ou de passagem sem que ninguém lhes ligue, as fontes sentem-se abandonadas, as mesas anseiam por uma toalha.

Resta-me a paisagem verde ,que parece ser a única coisa viva à minha volta. 

Sinto que me largaram de repente num deserto sem areia, cuja travessia vai ser longa e dolorosa para todos.

Sinto que passámos do 80 para o 8 e termino por aqui. Se um disco voador aterrasse hoje em Sintra, na Volta do Duche, no Castelo ou no Palácio, não estaria cá ninguém para testemunhar.

Vai na volta, preciso mesmo de um duche, estarei a sonhar?

 

 

 

 

21
Mar20

Divagações, histórias e estórias sobre as queijadas da Casa do Preto


Vagueando

Introdução

A ideia de escrever sobre a Casa do Preto há muito que me persegue, mas a inspiração nem sempre acompanha o desejo e assim, este anda por aí a vaguear de neurónio em neurónio, mas não se produz nada de jeito.

Escrever sobre uma casa fundada no século passado, anos trinta, quase 100 anos depois, mesmo tendo conhecido a segunda geração dos fundadores e conhecendo os seus descentes até podia ser fácil. Bastava amassar a história das queijadas com a história da Casa do Preto, deixar a descansar durante umas horas para crescer, de acordo com as práticas de confeitaria e tinha um documento de rigor, feito rapidamente e sem dor, mas desprovido de sabor, humor ou valor.

Mas o que pretendo é divagar no tempo, misturar realidade e ficção, um pouco de verdade e alguma invenção, retratar o passado, trocando as voltas a quem lê, esperando que acreditem ou não, sendo certo que, em qualquer das situações, estão todos à vontade para pensarem o que quiserem, porque não asseguro, não atesto, nem certifico nada do que abaixo vão ler.

Como a casa está quase a celebrar cem anos, e agora tenho todo o tempo do mundo, por causa do coronavírus, obriguei-me a escrever antes que a minha idade fique sem anos de vida para fazê-lo.

Afinal a minha Cédula Pessoal, na parte destinada a registar a manutenção corporal, só vai até aos 85 anos e isto já tendo em conta o actual aumento médio da esperança de vida. Ainda estamos, um pouco longe dos livros de manutenção dos carros em que as revisões vão, normalmente, até aos 100 mil, o que, em termos absolutos, é um número bem mais animador.

Comecemos pela matéria-prima, queijada. No sentido mais comum, trata-se de um doce, enformado em latinhas ou cascas feitas de farinha de trigo e água, recheadas por um miolo feito de ovo, queijo e açúcar.

Queijada também é nome de uma Freguesia em Ponte de Lima e da localidade com o mesmo nome, atravessada pela N201. (ver foto no link abaixo)

Usa-se ainda o termo queijada, embora de forma não tão conhecida, para designar gorjeta, gratificação ou mais a atirar para o calão, quantia que um rufião recebe da amante.

Chão de Meninos

Chão de Meninos a par dos nomes de outras localidades portuguesas é um nome curioso.

Como seria nos anos 30 e porque se chama assim? Estou sempre à espera enquanto vasculho o passado de poder encontrar alguém do além, que me explicasse a razão da atribuição deste nome a esta localidade.

Nunca o consegui fazer, até porque nunca tive de dotes de medium. Por isso inventei três hipóteses;

  1. A primeira, tem a ver com o facto de chão designar uma zona plana, o que acontece nesta localidade. A pequena localidade de Chão de Meninos é plana e tudo à sua volta é mais alto ou é mais baixo. A nascente, Alto da Bonita, a Poente, S. Pedro de Penaferrim são pontos mais altos e a Norte, a Estefânia, a Sul, o Ramalhão são pontos mais baixos.
  2. A segunda, tem a ver com o facto da palavra chão poder designar local sólido e seguro. É por isso que se diz que ter os pés bem assentes no chão é sinal de prudência e segurança.
  3. A terceira, porque chão também pode significar pequena propriedade, espaço particular pelo que muitas vezes utilizamos a expressão, vou para o meu chão.

Ora ligando o chão a meninos, falta explicar o porquê de meninos. Meninos é uma forma gentil e delicada para designar um conjunto de crianças, mas também usada, informalmente, para designar finórios/espertalhões.

Será então que Chão de Meninos foi um local bom para as crianças (meninos), por ser plano, por ser um local seguro ou por existirem na localidade muitas crianças e o povo, em sentido figurado, atribui-lhes a propriedade do local, dizendo que era o chão dos meninos? Ou será que foi um local onde finórios, espertalhões, burlões, eventualmente da realeza, da nobreza ou do povo, engendravam e praticavam as suas falcatruas?

Imaginem, agora que no local onde está hoje um talho - Nosso Talho, um cabeleireiro - Rute Vieira e uma garrafeira gourmet – Casta 64, existia nos anos trinta, um estabelecimentos de vinhos (vulgo taberna) e que para além de vinhos, ainda vendia carvão e palha.

Pois é verdade, a loja de António Joaquim Moreira, para além da venda desta panóplia de bens, ainda se encarregava de serviços de camionagem, praticava preços tão bons que não receavam concorrência alguma e dispunha de uma camioneta Chevrolet, nova, S-29802, de duplo rodado, de tara superior a 3 mil quilos.

Ver foto  com o Anúncio de António Joaquim Moreira, no Jornal de Sintra, Ano I, nº 33, de 26 de agosto de 1934, onde se pode ler que ficava em frente à Casa das Queijadas do Preto.

Chão de Meninos, no mesmo espaço que fica em frente à Casa do Preto, não serviu só de inspiração para os negócios das queijadas, vinhos, carvoaria e palha. Lembro-me de existir, no mesmo local, outro talho, do Sr Albino, uma padaria, um stand de automóveis da marca Fiat e anteriormente da Austin/Morris, que também tinha serviço de oficina com um letreiro de acrílico, montado num pequeno poste chumbado na parede, da British Leyland. Existia ainda uma pequena casa de reparação de electrodomésticos, conhecida como o Maneta porque o indivíduo que reparava os aparelhos só tinha uma mão. Lembro-me ainda uma pequena venda[1] de legumes.

Chão de Meninos também serviu de mote à cultura e ao espectáculo ao emprestar a sua designação toponímica a uma peça de teatro, levada à cena em 1950, no Cine Teatro Carlos Manuel. Tratou-se de uma comédia do autor francês Marcel Soland, cujo título original era Savez-vouz planter des choux (sabe como plantar repolhos), interpretada pelo elenco dos Comediantes de Lisboa. Esta peça, segundo uma crítica publicada na Revista Seara Nova do mesmo ano, não terá sido um grande sucesso.

A crítica negativa foi publicada na Revista Seara Nova nº 1154/55 de 18 a 25 de Fevereiro de 1950, (Ver foto do texto no link abaixo) por altura do Carnaval, altura em que a peça terá estreado no Teatro Apolo, na Rua da Palma, muito próximo da Mouraria em Lisboa.

O que é facto é que a peça veio a Sintra em Julho do mesmo ano, como se comprova pelo cartaz que faz parte do arquivo da CM de Sintra (Ver cartaz no link abaixo).

O que lá vai, lá vai e agora pouco importa. Importa sim, saber que Chão de Meninos foi um local sólido e seguro para Carlos Almeida fazer nascer e crescer a Casa do Preto e as queijadas neste chão, e assim também honrar Sintra.

Para concluir sobre Chão de Meninos lembro-me, nos meus tempos de juventude, final dos anos 60, princípio dos anos 70, muito antes de o Pão por Deus ter dado lugar ao Halloween, haver muitos meninos, onde me incluía, que naquele chão iam à Casa do Preto ao Pão por Deus, de saco de pano de retalhos na mão, à procura de bolinhos.

 

Casa do Preto

 

Na história das histórias da Casa do Preto, deparei-me com duas versões sobre o seu início.

A primeira refere que Carlos de Almeida, também conhecido por Carlos Russo, mecânico de profissão, não começou por fabricar queijadas. Começou a vender, em 10 de Janeiro de 1933 as que eram fabricadas no Gregório, dia em que também foi fundado o Grupo Desportivo União Colarense, e não terá atribuído de imediato nome à sua casa.

Só mais tarde, ajudado pela tia Maria Helena, que trabalhou numa queijadaria que existiu na Volta do Duche, de Alfredo Januário Gomes, começou a fabricar as suas próprias queijadas. Como Alfredo Januário Gomes faleceu em Março de 1935, ainda que o seu negócio tenha continuado durante algum tempo sob a gestão da viúva, parece fazer algum sentido, que a tia de Carlos Almeida tenha passado a ajudá-lo no fabrico das queijadas dois anos depois desde abrir o seu estabelecimento[2].

Cerca de um quilómetro e picos mais abaixo, em direcção a Sintra, na estrada de Chão de Meninos, junto ao entroncamento do Largo Formigal Morais, começa a Av D. Francisco de Almeida que termina na entrada de Estefânia.

Nesta avenida, mais precisamente nos números 26, 28, 30 e 32, foi inaugurada em 25 de Janeiro de 1934 a casa de móveis, Júlio Campos, com direito a notícia no Jornal de Sintra.

Ver foto no Link abaixo - Noticia da inauguração da casa de Móveis Júlio Campos, Jornal de Sintra Ano I nº 4 de 28/01/1934

Por mais que tentasse não consegui apurar se Carlos Almeida foi convidado pelo comerciante Júlio Campos para a inauguração da casa de móveis, de estilo parisiense, que contou com a presença de vários amigos, a quem, gentilmente, ofereceu vinho do Porto e bolos.

Ver link abaixo -Anúncio da Casa de Mobílias Júlio Campos publicado no Jornal de Sintra Ano I, nº4 de 28/01/1934. No mesmo Jornal de Sintra, na edição do Ano III, nº 137, de 06/09/1936, um anúncio publicado por Júlio Campos destinado a alugar esta loja.

Especulo eu que, pelo facto de se mencionar bolos na notícia da inauguração, que possam ter sido incluídas as queijadas, o produto doceiro típico de Sintra, eventualmente levadas da Casa do Preto ou do Gregório, cujo estabelecimento ficava muito perto.

Contudo, segundo informação obtida no livro de José Alfredo da Costa Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Sintra, Apontamentos Vários, edição da Câmara em Dezembro de 1998, terá sido nessa loja e mais ou menos por essa altura que Carlos Almeida adquiriu a estatueta masculina, de um casal de jovens negros. Achou a figura interessante e como a mesma representava um jovem negro a segurar uma bandeja, colocou-a à porta do estabelecimento, com pacotes de queijadas.

Foi a partir dessa altura, ou seja no ano seguinte à inauguração, que a casa das queijadas ficou conhecida por Casa do Preto.

A proximidade das datas do início da actividade de Carlos Almeida em Chão de Meninos, e a data de abertura da casa de móveis, bem como a referência feita por José Alfredo afirmando que a estatueta foi comprada no início da actividade da venda das queijadas, naquela avenida, leva-me a crer que a compra foi feita naquela loja.

Como curiosidade, cerca de um ano depois, mais precisamente em Julho de 1935, foi colocado o repuxo Real no Jardim da Preta, no Paço da Vila. Se já estão a pensar que se trata da figura feminina que não foi adquirida por Carlos Almeida em 1934, na Loja de Móveis Júlio Campos, estão redondamente enganados. O Jardim da Preta está actualmente, dentro do Palácio Nacional e assim se chama porque tem uma figura em relevo de uma mulher preta e de um pajem em trajes setecentistas e o alto-relevo de um castelo em argamassa que figura nas paredes do tanque de água.

E também na Vila Velha, na Rua do Briamante 1, anunciava-se em 1936, no Jornal de Sintra, o nome de José Preto como o dono da Alfaiataria Popular, que executava fatos de homem e rapaz de forma rápida e perfeita de acordo com os últimos figurinos. (ver anúncio no link abaixo Alfaiataria José Preto, no Jornal de Sintra 153 de 07/01/1937)

A segunda , vem referida no livro de Maria João Figueiroa, Sabores com História, editado em 2013. Segundo esta autora a Casa do Preto foi fundada em 1931, por Carlos Almeida, marceneiro de profissão. Terá sido ele que esculpiu a estatueta em madeira da figura masculina do jovem negro que colocou à porta, momento a partir do qual a casa ficou conhecida por Casa do Preto.

E também no que toca ao fabrico das queijadas é feita também uma referência à esposa de Carlos Almeida, Joaquina Inácio de Almeida que as fabricaria para venda na casa, como também as fabricaria para outros estabelecimentos.

Ainda segundo este livro Carlos Almeida chegou a fabricar umas queijadas mais pequenas, tipo bolo em miniatura, conhecida actualmente por queijada baby, que se destinavam a oferecer aos clientes que compravam 4 ou 5 pacotes de queijadas normais.

Seja qual for a versão sobre o início da casa, certo é que a Casa do Preto para além das queijadas também servia Vinhos Finos, conforme se comprova no anúncio publicado no Jornal de Sintra em 1936.

Ver link abaixo o anúncio Casa do Preto no Jornal de Sintra Ano III, nº 103 de 07/01/1936, onde se publicita a venda de doces e vinhos.

Por motivos de saúde, em 1972, passou o negócio ao seu filho José Rodrigo Inácio de Almeida, também conhecido por José Russo, casado com Maria Teresa Coluna Gato de Almeida.

A D. Teresa Almeida, esposa de José d’Almeida era uma mulher alta e sempre sorridente. Era daqueles sorrisos que não se escondem porque mesmo que tapasse a boca o sorriso continuava bem visível nos olhos.

Lembro-me de a ver espalhar alegria por todo o lado, fosse atrás do balcão ou fora dele. Falava com as pessoas sempre em modo alegre e divertido, nunca me recordo de lhe ver qualquer sinal de tristeza.

Terá sido sob a sua iniciativa que a casa passou a oferecer outros bolos para além das queijadas.

Em meados dos anos 70, se a memória não me atraiçoa, mandou fazer umas batas para as suas empregadas. Queria não só evitar que estragassem a sua roupa, como tornar a actividade no balcão mais higiénica e ao mesmo tempo passar uma imagem mais apelativa e uniforme da casa aos seus clientes.

Como era muito amiga de uma modista na Qtª da Fonte Longa, bem próxima do estabelecimento, encomendou -lhe uma série de batas e, durante alguns anos, o acordo foi-se mantendo.

Mantinham uns diálogos muito interessantes sobre os custos das batas.

A D.Teresa achava que a modista cobrava muito; Dizia que costurar uma bata era só fazer uns cortes em viés, chulear, fazer uns arremates e bainhas e um carrinho de linhas dava para cozer uma série de batas.

A D. Isilda defendia-se, dizendo que tinha que dar muito ao pedal da máquina de costura, que os aviamentos[3] eram cada vez mais caros e tinha que ir a Lisboa, aos armazéns do Chiado, para comprar tudo. Segundo a modista, Sintra não tinha uma grande variedade de aviamentos para costura de qualidade. E rematava: A D. Teresa julga que a costura rende tanto como o seu negócio, junta meia dúzia de ovos, meio quilo de açúcar e farinha, pega na batedeira eléctrica e tem uma fornada de bolinhos!

Riam-se as duas, a D. Teresa pagava o que lhe era pedido e a D. Isilda continuava a ir beber todos os dias o seu café à Casa do Preto e a comer um bolinho.

Para quem desconhece, a modista, Isilda Martins, foi aluna diplomada com 20 valores, pela famosa Escola de Corte e Alta Costura da Madame Justo, inaugurada por volta de 1930.

Madame Justo fez questão de enviar a um jornal da época, no final do curso, a notícia de tão brilhante aluna.

Ver no link abaixo a notícia publicada num jornal da época, sobre a modista Isilda Martins

A D. Teresa D’Almeida tinha orgulho na casa e na forma como as empregadas se apresentavam, pelo que as batas foram uma novidade quer ao nível do design quer ao nível da qualidade.

Numa altura em que não havia exigências da ASAE, nem programas de marketing, muito menos redes sociais fundamentalistas da imagem, a D. Teresa apostou na inovação da sua ideia e na qualidade da modista, da qual também era cliente pessoal.

Se Chão de Meninos já é uma história, a Casa do Preto faz parte da história desta localidade e, para além de ser uma referência da doçaria sintrense é uma marca que marca o local há mais de 80 anos.

Situa-se um pouco antes do Km 12 da Estrada Nacional 9. Curioso é que esta estrada, também conhecida por Estrada de Chão de Meninos, exista um marco com a indicação de que se trata da EN9 mas não é. A estrada, actualmente, é a N249.

Ver foto do marco do Km 12 da EN 9 colocado um pouco abaixo da Casa do Preto quem segue em direção a Sintra. Estes marcos desapareceram na voragem dos tempos e do progresso, pelo que este é o único existente no trajecto entre Cascais e Sintra.

Foi na N9 dos anos 60 e 70, junto ao marco do KM 12, que me lembro de ver, à beira da estrada vendedeiras a apregoar os belos morangos de Sintra e miúdos (lá estão os meninos), aos fins-de-semana a fazer uns trocos vendendo ramos de acácia florida, apanhados na Quinta da Fonte Longa.

Para além disso a Casa do Preto sempre foi como um farol para os automobilistas; Quando se queria explicar como encontrar Sintra a frase típica era: Chegas ao Ramalhão, (onde curiosamente João Carlos, irmão de Carlos Almeida, chegou a vender queijadas e onde hoje funciona o posto de combustível da BP, anteriormente da Mobil) passas a Casa do Preto e depois é só seguires a estrada até encontrares Sintra.

Ainda hoje, para quem não tem ou não gosta de GPS, se explica desta forma a quem quer chegar a Sintra.

Ver foto do Posto de combustível do Ramalhão em 1957,  no link abaixo, foi obtida em https://restosdecoleccao.blogspot.com/2014/06/mobil-oil-portuguesa.html

A Casa do Preto também funciona como ponto de encontro. Muitas pessoas combinam reunir-se no Preto, aproveitam para tomar um café e seguem o seu destino. Fica na Rota de Peregrinação a Fátima, onde os peregrinos, normalmente provenientes do início da caminhada no Estoril, fazem ali a sua primeira paragem, onde se abastecem com umas queijadinhas para tornar a caminhada mais doce.

Uma estória dentro da história

Em Novembro de 1934 era publicado um texto no Jornal de Sintra, na rubrica De Lápis Afiado, assinada por Medijor (pseudónimo de António Medida Junior), uma história com o título “Joaquim das Queijadas”.

Joaquim das Queijadas era a alcunha de Joaquim Prudêncio, cuja mãe fabricava queijadas. Era conhecido de todos em Sintra como figura típica, rebelde e popular. Bebia uns copitos e mendigava tostões para efeito ou para os cigarros.

Os saloios usavam uns barretes negros e o Joaquim chamava-lhes sacos de café e por isso os saloios quando o viam, tratavam de os tirar e esconder.

Um belo dia um petiz vai encher uma bilha à fonte da Vila e acaba por cair lá dentro. O amigo Joaquim em vez de ajudar o pequeno não parava de rir alarvemente, sendo criticado por ter tirado a bilha e não ter ajudado o rapaz. Joaquim calmamente afirma que não ajudou o pequeno porque assim ficou lavadinho e parecia novo, para além de que, bilhas daquelas havia pouco e rapazes havia muitos. E ainda se virou para o menor que tremia de frio, e disse-lhe - esfrega as orelhas porco, palerma!

Ver foto de saloios com o seu barrte negro, obtida em http://trajesdeportugal.blogspot.com/2013/10/o-trajo-saloio-o-habito-faz-o-monge.html

Faleceu aos 72 anos e António Medina Júnior volta escrever no Jornal de Sintra “A imagem do castiçamente popular do popularíssimo Joaquim das Queijadas faz falta à terra porque deixa vago o seu lugar nas ruas de Sintra.”

Nota final

Esta é a história que conheço sobre a Casa do Preto.

Uma parte desta história vivi na primeira pessoa. Outra parte resulta da leitura de várias obras que foram mencionadas, bem como consultas efetuadas na Biblioteca de Sintra ao Jornal de Sintra. Também recorri à imaginação sem qualquer preocupação de rigor científico ou histórico.

A Casa do Preto limitou-se a usar a ausência de cor (que alguns designam por preto), com o branco (que alguns designam como a reunião de todas as cores), para criar a sua marca, o seu logotipo e o seu papel de embrulhar queijadas.

Eu depois de muito ler e reler esta história, agora que cheguei a acordo com a minha consciência, decidi pô-la preto no branco.

Desejo que a Casa do Preto, assim que este maldito vírus esteja debelado, continue a ser um local onde as pessoas se encontrem, sejam bem-vindas, bem recebidas, respeitadas e que as suas queijadas continuem, por muito tempo, a fazer parte da história de Chão de Meninos e de Sintra.

Link para as fotos referidas no texto

https://photos.app.goo.gl/kba7RyHmnGqF2Se6A

 

[1] Venda – Termo que se usa também para designar pequena loja, casa de pasto, mercearia, taberna. Noas anos 60 existiam, em especial no Algarve rural, muitas vendas que incorporavam no mesmo espaço uma taberna e uma mercearia.

[2] Informação obtida no livro de Raquel Moreira, Queijadas de Sintra um doce regional, da Colares Editora e ao blog Rio das Maçãs.

[3] Nome que se dá aos elementos que são pregados à roupa, como miçangas, fivelas, entretelas, fitas, botões, linhas, cós, galões e fechos éclair.

 

 

04
Fev20

Divagações, histórias e estórias sobre as queijadas da Sapa


Vagueando

É mais fácil provar hoje uma queijada, do que provar quando é que ela apareceu, quem é que a provou em primeiro lugar e que mãos é que provaram ser capazes de ter a arte e a mestria de as confecionar pela primeira vez.

Quando as queijadas viram a luz do dia, por volta do Século XIII, seria mais difícil prová-las do que perder tempo a provar a sua existência e provar a sua qualidade. Não existia nem certificações, nem selo de qualidade que as distinguisse.

Se isto é o melhor que a inovação e a excelência, que tanto nos apregoam consegue provar, prefiro ficar a sonhar com o velho pregão nas feiras e nos campos da bola (não confundir com estádios) “Olha a bela queijada de Cintra”.

Pode ser que a Inteligência Artificial consiga, finalmente e em simultâneo, fazer do acto de provar uma queijada, mais do que nos culpar pelo pecado da gula, e de estarmos a dar cabo da nossa saúde (1) , um facto historicamente comprovado. Como? Ao desembrulhar doucement (não abrir, nem rasgar) o pacote de queijadas, receber aquele aroma da canela, sentir o desejo irresistível de trincar um qualquer daqueles 6 bolinhos redondos, protegidos pela fina casca, olhar para o papel que as envolvia e perceber que o papel (quiçá reciclado)que lhe coube, foi o de nos fazer ver no espaço por cima de nós, com todos os holofotes apontados, a história da queijada em 3D com som Dolby Digital.

Os holofotes existentes na casa das Verdadeiras Queijadas da Sapa (ver foto no link abaixo) 

A História tem os seus métodos para datar e comprovar a ocorrência de acontecimentos passados, ainda que alguns acontecimentos passados custem muito mais a engolir do que uma bela queijada.

Tanto quanto se sabe as queijadas serviram de moeda de troca entre 1227 e 1586. A título de exemplo o Casal do Rebolo em Almargem do Bispo foi arrendado ao Convento da Trindade em 1481 por cem alqueires de trigo (2), noventa de cevada, um porco de dois anos e uma dúzia de queijadas. Assim parece que as queijadas antes de serem produzidas para venda, constituíam reserva de valor, servindo como de moeda de troca em negócios.

Se naquela altura o Banco Lisboa, o primeiro a operar em Portugal, inaugurado em 1821, já existisse, aceitar-se-iam depósitos em queijadas, dentro prazo de validade, bem certo. Seria certamente denominado como o Banco Doçaria Boa (convém rimar com Lisboa para não trair a História) e teria, se calhar, uma vida mais longa que este banco, uma vez que em novembro de 1846 se fundiu com a Companhia de Confiança Nacional, sociedade de investimentos especializada em dívida pública e que mais tarde deu origem ao Banco de Portugal. Uma curiosidade de cariz ambiental. Há 175 anos atrás, o papel existente em armazém no Banco de Lisboa, foi integralmente aproveitado pelo Banco de Portugal para embrulhar as queijadas. Não! Foi aproveitado para imprimir, até 1875, notas mas com a marca de água do extinto Banco de Lisboa. Quem sabe se a ideia do Banco Doçaria Boa, cujos activos fossem suportados em queijadas, se hoje não teríamos bancos doces, mais valiosos, mais seguros e mais éticos que os de hoje.

As queijadas terão nascido – parece que ninguém sabe, sou eu a fazer de adivinho - ali para as bandas do Algueirão, eram fabricadas de forma artesanal, por vários particulares e vendidas em feiras e mercados, um pouco por todo o lado de Lisboa a Sintra.

Maria Sapa, estabelece-se em Ranholas em 1756, momento que terá sido o início da produção industrial de queijadas, com uma produção diária de vinte dúzias, as quais vendia aos fidalgos que se dirigiam a Sintra, no estabelecimento que se chamava Ramalhãozinho.

Ranholas era e de alguma forma ainda é, a porta de entrada rodoviária em Sintra, pelo que tinha tudo para ser um bom ponto de venda. Não existia proibição de estacionamento a cavalos, nem ocorriam constrangimentos de trânsito cavalar, devido ao estreitamento da via, aos limites de velocidade baixos, nem existiam passadeiras de peões, pelo que estavam reunidas as condições para que a Sapa fosse uma queijadaria de excelência, quer do ponto de vista do produto, a queijada como core business, e do ponto de vista comercial, porque era casa frequentada pelos mais distintos fidalgos. Ranholas foi também o ponto de passagem para o primeiro comboio que chegou a Sintra, o Larmanjat, inaugurado em 02 de Julho de 1873.

Inauguração do Larmanjat em Sintra (ver foto no link abaixo)

Horário do Larmanjat em 1873 (ver foto no link abaixo)

O comboio vinha do Rego até Cintra com paragem na Porcalhota, onde os aguadeiros e as vendedeiras faziam o seu negócio durante esta paragem. Não era bem um comboio porque só dispunha de um carril central, que servia para o direcionar, e os rodados assentavam em cima de travessas de madeira. Maria Sapa, já não viu este comboio, mas se tivesse visto não sei qual seria a sua reação ao ver os seus habituais fidalgos todos aperaltados , desembarcarem daquela geringonça, em vez de desmontarem dos seus cavalos, para comprarem queijadas no Ramalhãozinho.

Ainda que a produção de queijadas em Ranholas continuasse, o Larmanjat durou apenas até 1877, devido aos muitos descarrilamentos. O caminho de ferro não desistiu de Sintra, pelo que em 1887 o comboio a vapor chegou à Estefânia. Ranholas deixou de ser a porta privilegiada para entrar em Sintra, devido à chegada do comboio.

As queijadas de Maria Sapa, mudam-se para a Volta do Duche, onde ainda estão hoje. Sem sombra de dúvida, de todas as marcas de queijadas conhecidas, a Sapa é a mais antiga e, sendo a mais antiga, começou logo a ser inovadora. Os tão na moda kiosques, food trucks, roulottes, que animam hoje o chamado mercado de street food, que se apelidam de vintage que vendem comida gourmet, são-nos apresentados como uma grande inovação, deviam de ter vergonha porque não inventaram nada. Podem ser vintage, podem ser gourmet ou lá o que isso é, mas não são inovação. Inovação foi no tempo de Francisco Antunes das Neves, descendente dos Sapa, avô de conhecido Francisco Barreto das Neves, que tirou a licença nº 763, para poder circular com um veículo de duas rodas, de eixo fixo, puxado por uma cavalgadura, ou seja uma carroça, com a qual percorria vários locais de Sintra a vender as queijadas que fabricava.

Depois desta lição de história vou centrar-me na descrição épica da viajem da Casa Sapa, de 2,2km, entre Ranholas e a Volta do Duche.

Comecemos por Ranholas. Ao contrário do que muita gente pensa o nome Ranholas nada tem a ver com ranho, quanto muito tem a ver com ranha. Não, não comecem já a pensar em igualdade de género, se existe ranho tem que existir ranha. Ranholas será o diminutivo de ranha e ranha é um termo minhoto que designa declive no leito de um rio rápido. Quem passa em Ranholas em dias de muita chuva, constata facilmente que a estrada que atravessa a localidade se torna num verdadeiro rio com um declive significativo. Dai parecer fazer sentido, que o nome da localidade derive da palavra ranha.

Sair de Ranholas para a Volta do Duche, não há volta a dar é a subir. Não faço a mínima ideia por onde passaram os tarecos das queijadas Maria Sapa até chegar à Volta do Duche, mas especulemos um pouco.

Presumo que terá seguido logo pelo caminho em frente à casa, rua do Alto da Bonita, (em cujo alto, haveria alguma bonita ou só a vista é que era bonita), depois Chão de Meninos, talvez porque o chão dos meninos fosse mais macio e por isso mais adequado ao transporte dos utensílios de culinária, sem os partir, depois seguido pela Rua Albino José Batista, entroncar na rua Rodrigo Delfim Pereira, apanhar o caminho a descer da Alba Longa (3), fazer uns parcos metros na Rua Conde Seisal, virar à direita para a rua das Murtas, beneficiado do aroma a laranja que esta planta liberta e no fim, virar à esquerda na Rua João de Deus e, com a graça de Deus, desembocar junto à estação de caminho-de-ferro, recentemente inaugurado.

Daí até ao local onde hoje se encontra terá sido um pulinho.

Chegada à Volta do Duche, depois de tanto esforço, nada mais retemperador que um banho nos duches medicinais da Volta do Duche instalados em 1848 pelo médico Bernardino Silveira e Castro, altura a partir da qual a estrada entre a Vila Velha e a Estefânia, passou a chamar-se Volta do Duche. Estes banhos foram mais tarde propriedade de António Pereira que teve que os encerrar por falta de procura, ficando conhecido por Pouca Sorte. Melhor sorte teve as queijadas da Sapa, ainda hoje são um testemunho vivo que sobreviveu à voragem dos tempos modernos, constituindo-se assim como um símbolo histórico de Sintra e simultaneamente, uma marca respeitada e afamada.

Falemos agora do termo SAPA. Sapa designa uma pessoa de baixa estatura mas também designa uma pá usada pelos soldados para cavar/abrir trincheiras. Os militares encarregues de tal missão executavam o trabalho de sapador com esta pá, que tem a particularidade de possuir no topo, duas abas laterais que serviam para se poder calcar e assim cravá-la mais facilmente no chão facilitando a abertura da trincheira.

Antiga Pá de Sapa militar (ver foto no link abaixo)

Maria Sapa e os seus descendentes, foram verdadeiros sapadores. Não por terem aberto uma trincheira, mas sim por terem aberto uma ligação histórica entre Ranholas e a Volta do Duche usada ainda hoje, para chegar rapidamente à Volta do Duche e à Verdadeira Fábrica de Queijadas da Sapa.

Na próxima vez que visitar a Sapa, leve o pacote de queijadas até uma mesa, aconchegue-se na sala, olhe para o palácio, respire fundo, desembrulhe o pacote de queijadas, fixe as luzes por cima de si e voilá; Está presente a ver o passado, está em Ranholas. Esqueça que o ticket de estacionamento só dá para meia hora, já que está no passado desfrute-o. Viajou no tempo, aprendeu como nasceram as queijadas, fez uma viagem no Larmanjat, passou no Ramalhãozinho, veio de Ranholas à Volta do Duche e, de repente, regressa a actualidade e, ainda há uma queijada na mesa. Meio atordoado come-a de imediato e constata que lhe soube melhor que todas as outras.

Não viu nada? Pois, não será um verdadeiro apreciador das verdadeiras queijadas da Sapa ou terá que consultar um especialista, um queijadólogo, mas acredite que o problema é seu. Pelo menos é o que me dizem todos os que já viram o raio verde (4) quando o sol se põe no mar em condições muito especiais . Eu nunca vi!

 

Link para as fotos https://photos.app.goo.gl/BtB3UjFpRyX692gD6

Este texto mistura ficção com realidade, história com estórias, coisas sérias com coisas parvas. Para bom entendedor, é fácil perceber que a parte parva pertence ao autor e as partes sérias a diversas consultas, quer na Internet, cintraeoseupovocintraseupovo.blogspot, quer às magníficas obras de José Alfredo da Costa Azevedo, antigo presidente da CM Sintra.

(1) Sobre saúde não resisto a citar José Alfredo da Costa Azevedo que no seu livro “Apontamentos Vários” termina o seu capítulo “Queijadas” desta forma; Termino fazendo votos sinceros para que o belo doce sintrense continue a ser fabricado de forma a que não desmereça a fama que criou e faça muito bom proveito àqueles que o podem comer. Eu cá ficarei a rogar pragas à maldita diabetes.

(2) Para os mais esquecidos ou eventualmente mais novos os principais padrões do alqueire usados em diferentes regiões de Portugal no século XIX eram os seguintes:

  • 13,1 litros no litoral entre Aveiroe Lisboa
  • 13,9 litros, um pouco por todo o país
  • 14,9 e 15,7 litros, sobretudo no interior e no sul
  • 17,0, 17,5 e 19,3 litros, quase exclusivamente no Entre-Douro-e-Minho

(3)  Alba significa aurora, primeira luz da manhã. Antes da densa vegetação envolver Sintra seria possível beneficiar neste caminho de uma nascer do sol durante bastante tempo, daí a designação de Alba Longa.

(4) O Raio Verde, popularizado pelo romance de Júlio Verne com o mesmo nome. É um fenómeno meteorológico, muito rápido, que pode ocorrer ao pôr-do-sol, sob condições muito particulares de tempo. É mais frequente no mar e só pode ser observado se o horizonte estiver sem qualquer neblina. Não obstante, não basta não haver neblina é necessário que os valores de temperatura e humidade atinjam determinados parâmetros que desconheço

 

11
Jun18

Escadinhas e queijadinhas (light) de Sintra


Vagueando

Teixeira.jpg

 

A vida na grande terra

Corrompe a humanidade

Entre a cidade a serra

Prefiro a serra à cidade

 

António Aleixo

 

Depois do primeiro Escadinhas de Sintra ter sido um fiasco, não porque alguém se tivesse ido abaixo das canetas ou porque o coração não aguentasse, mas sim porque só apareceram 2 participantes, deu para perceber que de manhã e já agora também de tarde, o bom é na caminha, ou seja, com o rabinho colado ao colchão. Estou plenamente convencido que se as escadinhas fossem rolantes e em vez de estarem serra, estivessem num qualquer Centro Comercial tinha sido um sucesso garantido.

O projecto Escadinhas de Sintra consistia, e ainda consiste, em trazer pessoas a Sintra para caminhar, (de carro, de autocarro e de tuk tuk’s, já há cá muitas) ora para cima ora para baixo. Era cool, era ecológico e, além disso fazia-se exercício físico mas não vingou, se calhar por ser tão bom. Vá lá entender-se esta gente (ecologicamente) moderna!

Faz-me lembrar quem vai de carro até ao aprazível Parque das Nações para correr e andar, mas deixa-o mais perto possível de um café ou pastelaria, mesmo que fique parado na rotunda, em segunda fila, ou apertadinho noutro lugar quando, junto ao Rio Trancão há lugares grátis com fartura. Há mas ah e tal, são longe e não está lá ninguém para apreciar o equipamento fitness, todo xpto, de marca e na moda.

Acredito que o habitual nevoeiro de Sintra, tenha pesado na decisão de faltar. Talvez pensassem que tornasse a caminhada sem interesse ou tivessem receio das lendas e do sinistro ou, quiçá, que El Rei D. Sebastião, finalmente, aparecesse e ficasse chocado com tanta gente desarmada a assaltar o castelo em plena serra de Sintra. Mas não, contou-me um youtuber que a malta não gosta do nevoeiro porque as selfies não saem bem e o mesmo também prejudica o sinal do telemóvel, pelo que na maioria das vezes não dá para postar em directo.

Como não sou de desistir à primeira resolvi aditivar (cheira a combustível) às escadinhas umas queijadinhas, ou seja, apimentar a coisa, mas com doce.

A ideia das queijadinhas pareceu-me boa, mas o receio fundado dos nutricionistas, dos seus seguidores fundamentalistas, do vício que se transmite às criancinhas com estas iniciativas e até da taxa sobre o açúcar, ainda foram factos que me levaram a pensar em desistir, que se lixem as Escadinhas.

Mas aí, surgiu uma ideia luminosa, lá está a inovação é espectacular e por causa das dietas e da alimentação saudável, resolvi que a sacarose até pode ser boa, se for da moda, ou seja, light.

Juntar light à coisa doce pode ser cientificamente correcto mas, se não estiver no Facebook, com um mínimo de, digamos um milhão likes, não vale nada.

Já estou a estudar a hipótese de abrir uma conta no Facebook , para divulgar isto, mas só quando o Zuckerberg tiver resolvido todos os problemas relacionados com a proteção dos dados.

Portanto o leitor, imagine; As escadinhas e queijadinhas (light) de Sintra, é um passeio que não é very-light do ponto de vista físico, mas é light do ponto de vista nutricional, excepto se em vez de comer uma queijadinha, enfardar uns bons pacotes das mesmas (eu não posso dizer isto, daí ficar entre parêntesis, mas que dá gosto comer um pacote de queijadas de enfiada, lá isso dá).

Está na sua mão e no controlo que o seu cérebro conseguir exercer sobre a gula, a forma de perder a forma ou ficar em forma.

Então agora que o apetite já foi aguçado, resta dizer que as escadinhas que vamos encontrar (algumas) são pequenas, merecem a classificação que lhe deram, outras nem por isso, são mais escadões. Umas são largas, outras são estreitas, umas têm corrimão, outras, por mais que pesquise, não o vislumbra, nunca lá foi posto. Umas são mais inclinadas outras nem tanto, umas brilham pelas vistas deslumbrantes e de tirar o folego (mentira o esforço é que nos tira o dito), outras não brilham porque o sol não entra, estão encurraladas entre muros ou incrustadas na densa vegetação, umas são às curvinhas, outras a direito. Viradas a norte, a este, a oeste ou a sul, lá estão elas à espera de serem pisadas pelos corajosos caminheiros, andantes, andarilhos, andandeiros, andadores, andejos, caminhantes, transeuntes, nacionais ou estrangeiros, agora que já não há aguadeiros nem tão pouco almocreves.

As Escadinhas de Sintra permitem-lhe ascender a pé, a níveis e a cotas que costuma fazer de carro, mas com a vantagem das queijadinhas (light) de Sintra lhe darem a glicose necessária para dar corda aos sapatos e, ao mesmo tempo eliminá-la com prazer. E o melhor é que sem dar passos a mais, vai encontrá-las ao longo deste percurso maravilhoso-

Confuso, olhe para o gráfico altimétrico do passeio e imagine quantas escadinhas cabem lá e como vai variando a sua glicose quando sobe e a sua auto-estima quando, sentadinho a descansar em plena serra, come a queijadinha. Se optar por ficar na caminha, vai ver como fica ao rubro, não pelo calor gerado dentro da dita, mas de vergonha por ter optado pelo vale dos lençóis em detrimento do movimento que lhe dará alento para nova semana de stress.

Subir para cima destas escadinhas e descê-las para baixo, não é mais do que uma montanha russa pedestre, onde a velocidade em metros/segundo dá lugar a pulsações/minuto e em que adrenalina é substituída pelo esforço físico. Ao juntarmos as queijadinhas, tudo fica mais apetecível, mais convidativo e mais fácil.

Por fim, quando terminar, as cerca de 40 escadinhas e os seus quase 2.000 degraus, pode levar um pacote das ditas, de cada fabricante de Sintra e se quer que este dia seja mesmo excepcional, leve também um travesseiro e antes de pensar em usá-lo para dormir, coma-o.

E se gostou, não interessa se mais das escadinhas ou mais das queijadinhas light, então volte e repita.

Aqui ficam algumas fotos

https://photos.app.goo.gl/bBdnRarXxxzwArKc9

 

 

 

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