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Generalidades

Generalidades

12
Set23

Divagações sobre a "mula"


Vagueando

No meu tempo de infância habituei-me a ver crescer uma mula, que o meu avô comprou muito jovem e que mais tarde usava para lavrar e para puxar uma carroça algarvia, que na época eram lindas e um luxo. A mula era linda, esbelta, mansa, meiga, parecia um cão a segui-lo por todo o lado e o meu avô tratava-a como uma princesa.

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Carroça algarvia

Não seguia mais ninguém, só obedecia ao meu avô.

Uma vez seguia com ele, montados na mula e parámos na taberna para tomar uma bebida. A mula obviamente ficou à porta e solta. Na brincadeira, um conhecido tentou leva-la para a esconder mas não conseguiu.

Nesta altura também me habituei a ouvir a canção A Mula da Cooperativa, cantada por Max e recentemente, por António Zambujo num espetáculo a homenagear  este cantor. Contou ele que durante uma destas homenagens espetáculo, alguém na plateia, gritava com frequência, “Canta a Mula, canta a Mula….

E lá cantou a Mula.

Nos meus tempos de juventude a atirar para o adulto quando passava uma mulher jeitosa, agora já não se pode mandar piropos, dizíamos “ganda mula”. Também por esta altura ouvia-se muito a expressão “doutores da mula ruça” para designar pessoas que davam ares de importante quando não o eram.

Nos meus tempos de adulto em início de carreira profissional, cometi a maior gafe da minha vida, que ainda hoje me amargura, isto tudo por causa da “mula”.

A palavra mula fazia parte do vocabulário da empresa. Naquela altura trabalhava-se com muita documentação em papel e muito desse papel era transportado de mota que fazia o chamado serviço expresso. Ora essa documentação tinha que chegar todos os dias de manhã cedo, sob pena de não se conseguir trata-la até às 12h, o que acarretava consequências graves para a empresa e para os seus clientes.

O chefe, cabelos brancos, sempre de cigarro na boca e quase sempre com outro acesso no cinzeiro, conseguia transformar um espaço amplo onde trabalhavam cerca de 60 pessoas, num espaço pequeno para tanto fumo. Em abono da verdade, quase todos e todas (ainda não havia todes) fumavam.

Num dia chuvoso, entra o chefe por ali adentro, obviamente de cigarro na boca, onde eu e mais uns colegas aguardávamos a chegada da documentação para começarmos a trabalhar e diz; Estamos tramados (imaginam a outra expressão que o começa com “f”) o mula expresso (referindo-se o pobre estafeta) estampou-se no Campo Grande e a documentação espalhou-se toda pela estrada.

Deu-me vontade de rir chamar ao estafeta o mula expresso, mas passou-me a vontade quando descobri o trabalho extra que iríamos ter para recuperar aquele dia.

Percebem agora a razão por que é que a palavra mula fazia parte do vocabulário da empresa e este incidente, acabou por me inspirar a escrever um post, em Dezembro de 2019 a que chamei o Mula Expresso.

Para terminar só falta falar da gafe. Num final de dia, a empresa já tinha encerrado o atendimento ao público.

O meu posto de trabalho era ao lado de um colega que durante quase todo o dia andava na rua a angariar e visitar clientes, pelo que não tinha muita confiança com ele, até porque estava na empresa há menos de 3 meses. Tocam à campainha, foram abrir a porta e entra uma mulher linda, alta, super elegante que sentou num dos sofás destinados ao público.

Não resisti e atirei ao meu colega, já viste a ganda mula que acabou de entrar? A resposta do meu colega foi educada, acompanhada de um sorriso - É a minha mulher!

16
Jun21

O drama de uma folha em branco


Vagueando

20210616_130922.jpg

 

Aquela folha havia sido cuidadosamente retirada de uma resma de quinhentas outras irmãs, que se encontravam acondicionadas num pacote protetor e depositada em cima de uma escrevaninha ao lado de uma caneta.

Estranhou, estranhou mesmo muito, até porque à sua frente tinha uma pessoa que segurava a caneta, não falava, quase não se mexia, mas parecia estar em grande esforço e sofrimento.

Enquanto esteve acondicionada naquela resma, bem embrulhada, protegida da humidade e da luz, foi ouvindo as conversas entre as suas irmãs e, dessas conversas nunca ouvira nada que se assemelhasse ao que lhe estava a acontecer.

As conversas decorreram ao longo do tempo e foram muitas. Desde a saída da fábrica, passando por vários transportes, até ser arrumada num armário, por baixo de uma impressora, onde o barulho era o pão nosso de cada dia, foi percebendo o destino que lhe estava destinado.

Assim, enquanto estupefacta observava o sujeito, foi recordando o que ouviu ao logo dos tempos, para ver se percebia porque razão estava ali. Tinha sido fabricada de acordo com uma fórmula Premiu, reciclada e com novas fibras com o objetivo de melhorar os resultados nas impressões a laser e a jacto de tinta. Tinha 80 g.m¯², High Performance, Super White.

Ainda por cima, tinha aprendido, também em português, umas coisas sobre as suas qualidades, tais como; ser multifuncional, ser de excelente qualidade de impressão e de oferecer maior proteção para a impressora.

Tinha sido distinguida pelos consumidores como a mais eficiente em toda a Europa.

Ouvira também as suas irmãs contar histórias de outras folhas, nomeadamente sobre quando eram chamadas a cumprir o seu papel. Era sempre de urgência, os utilizadores rasgavam furiosamente os pacotes, onde estavam acondicionadas, batiam-nas em cima de mesas para ficar bem alinhadas - como se não estivessem já – folheavam a resma rapidamente para a descomprimir e despejavam-nas dentro de uma gaveta, normalmente quente, de uma impressora.

Era nesta altura que mostravam o seu valor, correndo dentro daquela máquina infernal que lhes despeja tinta preta ou de várias cores, numa das faces ou, pior, nas duas, em voltas e mais voltas dentro daquela caranguejola sofisticadíssima, mas horrenda e barulhenta.

Aprenderam a manter sigilo sobre o teor dos assuntos que lhe depositam em cima, sem refilar ou protestar, já que foram ensinadas a não ter opinião nem direito de veto sobre a temática que lhe é impressa.

Não obstante, reza a história sobre algumas destas folhas, que ao perceberem o género de coisas com que vão ser impressas, se revoltam e amotinam, encravando a máquina de propósito. A impressora barafusta e dá mensagem de paper jammed o que provoca a ira do utilizador que se vê obrigado a abri-la, sujar bem as mãos, retirar as folhas revoltosas e começar tudo de novo.

Algumas folhas eram tão malvadas que largavam pequenos pedacinhos da sua fina espessura, nos locais mais apertados daquele amontoado de rolos que imobilizavam a máquina por vários dias, até que um técnico credenciado conseguisse remover aqueles destroços revoltosos de dentro da máquina.

O que faria eu ali sozinha, fora da resma e fora de uma impressora, como quem diz fora do baralho, com uma caneta em cima e um indivíduo a olhar para mim, como se eu fosse a culpada do seu sofrimento?

Fiquei ali mais a caneta, durante toda a noite, sem saber mais o que pensar e também não tinha mais nada para recordar. Ouvi bichanar, era a caneta. Pensava que as canetas só conseguiam comunicar através de terceiros, ou seja, quando alguém lhes pegava e as fazia escrever. Afinal, enganei-me, aquela caneta pensava, tal como eu, no que estava ali a fazer, uma vez que há anos que se encontrava na gaveta. A tinta, de cor azul, que enchia o cartucho de tinta permanente, havia secado na voragem do tempo em que esteve fechada. Dava dó olhar para aquele aparo desidratado e sujo com a última gota de tinta que havia transportado até uma qualquer folha.

E assim passámos a noite a pensar nas nossas vidas.

Acordámos com os primeiros raios solares a entrar pela janela, que aos poucos começaram a queimar a minha pele, super branca, o que me incomodava bastante.

Apareceu de novo o homem, sentou-se e olhou de novo para mim. Tinha o mesmo ar de sofrimento condimentado com o que parecia ter sido uma noite mal dormida ou uma ressaca, quem sabe. Percebi, do seu murmúrio, que queria escrever mas não tinha inspiração, comentando, para si mesmo que era aterrador olhar para uma folha em branco e não saber o que escrever.

Pegou-me gentilmente, depositou-me numa gaveta vazia, espaçosa e limpa, voltou a colocar a caneta em cima e fechou a gaveta. Agora em voz alta, que deixava transparecer alguma raiva, talvez para que eu ouvisse distintamente, disse que quando a inspiração voltasse pegaria de novo em mim e já não me deixaria nem virgem, nem totalmente branca.

Percebi que o meu destino estava traçado, não iria acabar numa impressora mas sim iria ser parte integrante de uma história. Isto se entretanto a caneta colaborar.

A raiva daquele homem, mas também o sofrimento demonstrado e a forma como me tratou, fez-me ter confiança de que um dia, algo de bom e de importante será depositado na minha face, o que me deixou muito tranquila, porque era minha intenção encravar uma impressora, caso me fosse impressa com uma qualquer baboseira.

Quem sabe acabarei emoldurada.

Até lá, esta história é minha, com a participação especial de uma caneta sem tinta e de um pseudo-autor que, apenas e só lamentou, que eu, folha super branca, o intimidei e lhe retirei, para já, a imaginação.

Já lá dizia o meu avô, folha de papel pardo; “Quem não sabe dançar diz que a sala está torta…”

Sendo eu uma simples folha de papel, que papel me coube?

Obviamente, o papel principal.

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