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Generalidades

Generalidades

10
Jul21

A Propósito de Motas


Vagueando

Generalizou-se a ideia de que conduzir uma mota, sendo símbolo de liberdade, mas já não de cabelos ao vento, porque entretanto se ganhou consiciência de necessidade (obrigatoriedade) de usar capacete para protecção do motociclista, se pode "ultrapassar", nalgumas cabeças até legalmente, algumas regras do Código da Estrada.

Tendo conduzido várias motas, sem nunca ter sido dono de nenhuma, gostaria de deixar aqui um exemplo do perigo de contornar algumas regras do Código da Estrada.

Há pouco tempo circulava a pé numa avenida, com três faixas de rodagem para cada lado e com semáforos. Aguardava pelo sinal verde para peões, mas como o trânsito estava parado e existia um polícia no local este decidiu mandar parar o trânsito que gozava se sinal verde e mandar avançar os peões.

Um motociclista, guiando-se pelo sinal verde, não tendo visto o polícia seguia no meio de duas filas de trânsito a uma velocidade desproporcionada à situação com se estava a deparar e quase me atropelou na passadeira. O acidente só não aconteceu porque me apercebi da sua vinda mas, ainda assim, pensei que iria parar.

Não obstante vir em contravenção com o estipulado no Código da Estrada, insultou-me sem se aperceber da presença do agente de autoridade que o mandou encostar imediatamente.

Não sei o que se passou a seguir, porque fui à minha vida, mas constato que frequentemente, os motociclistas usam o seu conceito de liberdade (quiçá um pouco egoísta) para ignorar o Código da Estrada, até naquilo que mais os desprotege, nomeadamente quando realizam ultrapassagens em zonas onde a sinalização o proibe e o mais puro bom senso desaconselha e isso, muitas vezes, dá mau resultado.

Como dizia António Variações, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

 

03
Mar21

A liberdade foi encerrada


Vagueando

O Parque da Liberdade em Sintra está encerrado.

A liberdade no parque está encerrada, a liberdade de ir ao Parque da Liberdade está proibida, a liberdade de ir olhar para parque está bloqueada, a liberdade de conduzir até ao parque está interdida.

As ruas, com ou sem saída, ruelas, travessas, becos, alamedas, avenidas, marginais, vias rápidas, panorâmicas, caminhos, trilhos, pontes,  cidades, povoações, nas aldeias, tal como o Parque, ficaram sem liberdade.

A liberdade é o maior bem da humaninade, habituados que estamos a usufrui-la, andam por aí a pedir que a limitem, em nome de uma alegada maior segurança.

Não me deixam andar, não me deixam caminhar, não me deixam sair, não me deixam conduzir, não me deixam sequer fruir o ar que tenho de respirar.

Obrigam-me a proteger-me como se me pudesse proteger. Proteger-me deste vírus é abdicar de respirar e ficar em prisão domiciliária. Sim preso, sem nunca ter sido julgado nem condenado por qualquer crime.

Eu só quero proteger-me do encerramento da liberdade.

Podem encerrar a liberdade do parque e dentro deste, mas não a podem encerrar - eternamente - fora dele. 

Para encerrar a liberdade dentro do mesmo portão, dentro do mesmo parque substitui-se um cartaz temporário por um com ar de definitivo, talvez porque seja isso mesmo, definitiva a perda de liberdade.

Liberdade, liberta-te desses muros, sobe pelas árvores, salta pelos ramos, voa ao sabor do vento, mistura-te com o ar, solta-te e apanha as minhas palavras, espalha-as por aí, por todo o lado porque as palavras não têm vírus, não vão desproteger ninguém, esteja livre ou confinado.

22
Set20

As portas


Vagueando

Vejo portas por todo o lado. Contudo, atrás delas nada se vê, como se nada houvesse para ver. Vejo e sinto o medo de as abrir, sair ou entrar. As portas já não se mexem, não servem para entrar e sair.

Tornaram-se no símbolo da clausura.

As portas que antes se destinavam a resguardar a nossa intimidade e privacidade tornaram-se, sem novo acordo ortográfico ou alteração do seu significado no dicionário, mesmo sem serem portões de uma qualquer prisão, no símbolo da nossa prisão domiciliária, sem pulseira electrónica mas com a app, de sabor amargo, a Stayaway Covid.

É uma sensação estranha, igual à que sinto perante a luz do mesmo Sol. Na Primavera sinto alegria e no Outono, não me sentindo necessariamente triste, fico mais abatido. Estas portas fechadas na Primavera e Verão, transforam luz do Sol da Primavera, na luz do Sol de Outono.

As únicas portas que parecem ter movimento são as giratórias entre tachos, amigos e compadrios comportamentos, curiosamente, pouco sadios, no tempo em que está em causa a saúde pública.

As portas onde especialistas em saúde, epidemiologistas debatem, à porta fechada o problema para o qual não têm solução, mandam, porta fora, o máximo de coeficiente de cagaço, o qual se resume a feche a porta e não respire.

Em consequência, as portas para quem tem trabalho, parece que vão começar a abrir e a fechar em horários desfasados para não se juntar tudo, ao mesmo tempo, às portas dos transportes. Curiosamente ou não, as portas para quem não tem trabalho vão manter-se, por muito tempo, infelizmente, fechadas, quiçá a sete chaves. Estão fechadas a todos os que andam de porta em porta à procura de emprego e, se alguma delas se abrir, é engano, serão de imediato fechadas na cara de quem lhe bateu e se se mantiverem abertas, dificilmente serão boas portas.

A minha porta está triste porque não vê os meus amigos, nem os meus vizinhos. Sim, a minha porta é muito sensível ao tacto, gosta de ser puxada e empurrada por estranhos e de ser violentamente atirada contra o batente pelas correntes de ar. Nem pensar, o vírus pode entrar no meio de tanto ar. Não é uma porta falsa, nem que se fecha na cara de alguém, não é porta de armas, é porta que se comporta de acordo com as melhores práticas de serralharia e opera apenas e só dentro do seu limitado raio de acção, suportada pelas suas velhas dobradiças.

Vejo outras portas por aí com algum movimento é certo mas trocam sms com a minha porta e queixam-se da tristeza que sentem de ser tão pouca gente e quase ninguém lhes toca com as mãos, uns empurram com os pés, outros empurram com o corpo em marcha atrás e outros com os cotovelos. E o pior é que não conseguem ver ninguém a sorrir mesmo que essa bela expressão esteja presente no rosto de quem está feliz (o que é difícil) as máscaras tiranas, não deixam as portas espreitar o sorriso de alguém. Assim apenas observam o medo espelhado nos olhos de quem entra e de quem sai.

Nem as portas de cores vivas e modernas ou de vidro transparente, bem polido, deixam transparecer alegria, vivacidade, curiosidade ou afecto, todas as pessoas tem o mesmo aspecto, todas de máscara na cara. Antes era sinal de assalto, agora é sinal de que fomos todos assaltados; Roubaram-nos a liberdade e a das portas também.

Até as portas de um hospital já se fecharam ao público por causa do vírus e também se fecharam em copas nas explicações da razão de tal procedimento, violento, o que lamento.

Custa-me ver portas fechadas por medo, não por respeito ao descanso ou à privacidade, parece que estamos todos às portas da morte.

Nem no Tejo, onde as suas margens estreitam, se fecharam as Portas do Ródão, continuam bem abertas a respirar e a deixar passar o ar e o rio, que não se confinaram.

Vamos fechar as portas ao medo e abrir as portas à esperança, porque não quero que a porta da minha e das vossas casas se transformem nas portas da nossa prisão.

Deixo aqui as fotos de algumas portas fechadas por esse país fora, na esperança de as vejam como eu gostaria de ver, com movimento, com gente, sem ferrugem nas dobradiças.

https://photos.app.goo.gl/zWHRcYiJdKvngWG46

 

15
Ago20

Não sei


Vagueando

Ontem andei com uma estranha sensação, sentia vontade de escrever mas faltava inspiração.

Desisti, que se lixe, isto não é uma missão, nem sequer uma obrigação, muito menos uma ambição é apenas e só prazer, quanto se junta uma coisa com a outra, a gana de escrever e a inspiração.

Regressei à leitura do livro, já liberto do tormento que foi distrair-me dela.

Lia, o pensamento ora seguia o texto de forma mais pausada como a água que corre numa ria ou de forma mais rápida como a água de um rio contida nas margens ou até de forma mais agressiva como acontece quando a água explode para lá do seu curso habitual ou quando se despenha numa grande catarata, onde o som  da sua queda dá tranquilidade a toda aquela violência.

Estava de novo a sonhar e via, no texto que lia, por onde seguia.

O imaginário que a leitura de um livro nos permite, é o nosso melhor guia, de noite e dia. Sentado, sentia que naquela página que o meu dedo prendia, logo após a vírgula, a interrogação ou exclamação, era por ali que se seguia, sem mapa, sem norte, sem estrela polar, sem guia, sentia os sons das imagens que a leitura me transmitia.

Entretanto perdi-me no texto e na viagem que não terminou, fiquei preso nesta frase. “Nos tempos que correm, já não há Deus nem Diabo. Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder.”

Esta frase, de Sophia de Mello Breyner Andresen, faz parte do conto “O Jantar do Bispo” do livro Contos Exemplares., publicado pela primeira vez em 1962.

Centrei-me no prefácio deste livro, da autoria de Federico Bertolazzi. Refere o Professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Roma, na 39 Edição destes contos, de Fevereiro de 2014 , que a primeira edição nasceu de uma urgência ditada pela imposição de condições sociais iníquas praticada pelo governo de Salazar que se mantinha no poder em virtude de uma estrutura piramidal da sociedade cujo efeito era o esmagamento das camadas mais baixas.

E o inaceitável, aos olhos da escritora, era o facto de Salazar afirmar que a sua política se baseava na doutrina católica.

A sociedade mundial está actualmente, perante um desafio épico.

Não sei se estamos perante um problema de saúde pública ou se perante uma campanha massiva de divulgação do medo que permita esmagar a liberdade, fazendo com que sejam as pessoas a exigir mudanças que levem à perda de direitos e pior, de liberdade, sim de liberdade.

Recordo-me da parábola escrita por Oscar Wilde sobre umas limalhas de ferro que viviam perto de um íman.

As limalhas mais jovens começaram a planear uma visita ao íman, o que era contrariado pelas limalhas mais velhas. À medida que a rebeldia das limalhas mais jovens crescia iam-se aproximando do íman que assistia, impávido e sereno aos planos destas. Dia após dia iam discutindo ao mesmo tempo que se aproximavam do íman. Até que um dia, já perto dele, foram atraídas pelo seu poder electromagnético.

Eufóricas por terem, finalmente, visitado o íman, nem se aperceberam que a decisão não tinha sido voluntária, mas sim uma inevitabilidade.

Neste sentido, não sei se todos nós, hoje, perante a pandemia, não estamos a fazer o papel de limalhas, ainda que se desconheça onde está e quem é o íman.

Salve-se quem puder ou salva-se quem tem poder?

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