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Generalidades

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24
Jul22

As histórias e toponímias que cabem em 692 metros da Rua Albino José Batista - Sintra


Vagueando

Placa Fim da rua.jpg

A Rua Albino José Batista, com 692 metros de comprimento e de largura irregular, inicia-se junto ao Jardim da Vigia e termina na Estrada de Chão de Meninos, junto à Casa das Queijadas do Preto.

A história (possível) sobre esta rua, completa uma trilogia de posts que já escrevi, ligando assim as histórias do Jardim da Vigia Ler aqui  e da Casa das Queijadas do Preto Ler aqui.  Nasceu de uma conversa com D. Carlota, 86 anos, a sua habitante mais velha, residente na mesma há 64 anos, que me disse com a certeza de uma memória fresca e bem viva, que antigamente se chamava Rua Campo do Arrabalde.

Não existe na CM de Sintra qualquer registo sobre a atribuição desta toponímia à rua, ainda que tenham indicado que este topónimo seja anterior a 1969, data a partir da qual estes registo foram organizados.

José Alfredo da Costa Azevedo, ex-presidente da CM Sintra, refere no seu livro Bairros de Sintra, que o comerciante lisboeta com o mesmo nome, residiu nesta rua, sendo que, segundo a D. Carlota, viveu no nº 47, na altura Vila Eliza e atualmente Vila Stª Maria.

Albino José Batista, fundou em 6 de Julho de 1876, uma loja na Rua Nova do Almada, nº 92, razão pela qual lhe atribuiu o nome de Loja 92, especializada em artigos de senhora. Sugiro uma consulta ao blogue Restos de Coleção neste link Albino J Batista

Curioso é o facto do dia da inauguração da loja (dia 6) e nome atribuído à mesma (92), formar o número igual ao comprimento da rua com o seu nome, os tais 692 metros.

Para confirmar a informação dada pela D. Carlota, recorri a documentos da família da minha mulher e de alguns dos moradores, que me deram acesso a escrituras e contribuições prediais dos anos 30 e até mesmo anteriores. Desta consulta conclui que a rua era designada por Campo do Arrabalde ou Sítio do Campo do Arrabalde e também, popularmente por Rua Bairro do Ingleses e que os terrenos que a ladeavam eram conhecidos por Terras de Cima e Terras de Baixo.

Deduzo que a designação oficial seria mesmo Rua Campo do Arrabalde, isto porque a história contada pela D. Carlota parece confirmá-lo; Quando esta necessitou de realizar um acto público que envolvia a sua casa, referiu que se situava na Rua Bairro dos Ingleses, toponímia que não constava oficialmente e que impediu a realização deste ato. Neste sentido, foi obrigada a fazer um novo registo da casa na Rua Campo do Arrabalde.

Num testamento de 1950 de um familiar da minha mulher, faz-se referência a uma casa situada no Campo do Arrabalde (não referia rua) ou Bairro dos Ingleses. Por curiosidade, nesse mesmo testamento, também é referida uma casa na Escadinhas do Arrabalde, as quais, em sessão de Câmara de 16 de Abril de 1955, adotaram a toponímia de Escadinhas da Vigia, sendo que estas Escadinhas começam junto ao Miradouro da Vigia, onde se inicia também a Rua Albino José Batista.

O Arrabalde, começava no Largo Sousa Brandão (local onde existia uma Casa de Cantoneiros, transformada em Posto de Turismo de Sintra) e estendia-se para nascente, abrangendo toda esta zona onde se situa a rua e o jardim.

Há cerca de 7 anos, cruzei-me na rua Albino José Batista, com um casal italiano que me perguntou onde era a Vila Alecrim do Norte. Disse-lhes que não havia nenhuma Vila com este nome, nesta rua.

Perante a sua insistência e convicção inabalável de que estavam certos, tinham viajado propositadamente até Sintra para ver o local, telefonei à minha mulher, nascida nesta rua e perguntei-lhe onde era esta Vila. A resposta foi, para minha vergonha e contentamento do casal, que era muito perto do local onde tinha nascido e pela sua explicação percebi que estávamos mesmo à porta da Vila Alecrim do Norte e, pela primeira vez em muitos anos, reparei que estava lá escrito Vila Alecrim do Norte.

Curioso, perguntei-lhes a razão do seu interesse para viajar de Itália em busca deste local. Referiram-me que leram um livro cujo título era o “Diário de Sintra”, que relata a experiência de 3 jovens ingleses S. Spender, C. Isherwood e W.H.Aunden, que viveram nesta casa ente Dezembro de 1935 e Agosto de 1936.

Efectivamente nos anos 30 e até aos anos 70, viveram nesta rua vários ingleses, nomeadamente na Casa Cerrado da Eira e na Vila Alecrim do Norte, que conviveram com portugueses, alguns dos quais ainda vivos.

No Cerrado da Eira vivia a Srª Enid Mitchell, que manteve com os habitantes portugueses uma excelente relação de amizade e até de solidariedade social, chegando a doar casas a alguns deles, quer nesta rua quer em ruas adjacentes, alguns dos quais ainda as habitam. No alto de S.Pedro, mesmo junto à escola, existia uma taberna conhecida por Carlos Mitchell, dado que o dono, o Sr Carlos, chegou a ser motorista da Sra Mitchell.

Enid Mitchell pintava quadros com motivos de Sintra e foi a mentora de um pintor natural de S.Pedro de Penaferrim, Pinheiro de Santa Maria, que foi viver para os Açores, nos anos 70,  mais precisamente na Ilha Graciosa, infelizmente, falecido já no decorrer de 2022.

Devido à “colónia” de ingleses a viver nesta rua e arredores, conta-se que foi um dinamarquês de nome Anderson, residente na casa conhecida por Achadinha, com acesso quer por esta rua como pela Rua Dr. José Neto Milheiriço, que resolveu “batizar” a rua, com o nome de Rua Bairro dos Ingleses, e terá mesmo colocado uma placa com esta designação.

Não estava mal visto e parecia fazer sentido e não terá havido contestação popular ou eventualmente, dos serviços oficiais, pelo que a designação pegou!

A toponímia não oficial de Rua Bairro dos Ingleses, explica-se então assim.

Nos anos 30, vieram viver para uma casa, alugada pela Srª Mitchell, a Vila Alecrim do Norte, os 3 jovens escritores ingleses, Stephen Spender, Christopher Isherwood e Wystan Hugh Aunden. Este jovens fugiam do preconceito existente em Inglaterra sobre os homossexuais e vieram para Sintra em busca da tranquilidade e inspiração que lhes permitisse escrever obras teatrais e poesia e que mais tarde concretizaram.

Enquanto habitaram esta casa, entre Dezembro de 1935 e Março de 1936, escreveram um diário (Diário de Sintra) que deu origem a um livro, editado em italiano e traduzido para espanhol. Este livro só foi possível após o filho de Stephen Spender, Mattew Spender, radicado em Itália, ter descoberto por volta de 2012, o diário escrito pelo seu pai, enquanto aqui viveu.

Depois da história contada pela D. Carlota, resolvi procurar o livro, o qual, infelizmente não está traduzido para português, e adquiri a versão espanhola.

Ao ler as histórias foi como tivesse visto filme da época, a forma como os ingleses nos viam “os portugueses eram engraçados e simpáticos, dado que em Inglaterra segue-se a tradição de que todos os estrangeiros não o são”, e as tarefas levadas a cabo por estes ingleses, que iam desde a construção de casotas em madeira para acolher a criação de coelhos, à construção de galinheiros para criação de galinhas, à construção de um canil, para além das tarefas de jardinagem e, pelo meio, iam escrevendo, quer o diário, quer outras obras.

C.Isherwood escreve uma carta à sua mãe em Dezembro de 1935, que consta do livro, a relatar que encontraram casa em Sintra, mais precisamente a Vila Alecrim do Norte e chama a atenção da mãe para a morada que segue na carta. Infelizmente, pese embora tenha conseguido contatar Matthew Spender, não foi possível apurar qual a rua ou local que era referido naquela carta.

Segundo o Diário de Sintra, Enid Mitchell terá referido aos jovens ingleses que foi a segunda mulher a tirar a carta de condução em Portugal.

Enid Mitchell, viveu com os pais em Portugal, com o início da guerra vai para Inglaterra servir o seu país como enfermeira regime de voluntariado e regressa a Portugal com o fim da mesma.

Após a morte dos seus pais, vende a casa onde viviam, “O Cerrado da Eira”, a outro inglês o Senhor Shaw e vai viver numa pequena casa que autonomizou do Cerrado da Eira, com uma criada portuguesa, de nome Domingas. Esta casa foi deixada em testamento à sua criada Domingas que, por sua vez, a deixou em testamento a outro habitante de S. Pedro que ainda nela reside.

Quando se dá o 25 de Abril em Portugal, Shaw decide vender "O Cerrado da Eira", que foi comprado pela família Rocha Neves, cujos herdeiros a habitaram até há pouco tempo.

Regressando à toponímia Albino José Batista. Existem mapas camarários, um dos quais editado pela C.M. Sintra em 1978, que relativamente a esta rua, coincide com outro publicado na página 304, do livro de José Alfredo da Costa Azevedo – Bairros de Sintra, que mostram que a rua Albino José Batista, não chegava até à Casa das Queijadas do Preto, onde hoje termina.

Principiava igualmente junto ao Jardim da Vigia, mas terminava no final da Travessa da Boavista. E era esta Travessa da Boavista que ia terminar em Chão de Meninos, junto à Casa das Queijadas do Preto. (ver foto abaixo)

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A azul a extensão da Rua Albino José Batista no mapa da CMSintra de 1978.

A vermelho a Travessa da Boavista no mesmo mapa

A verde a atual Rua Albino José Batista

Ainda assim, em conversas tidas com alguns residentes das redondezas asseguraram-me que a parte final da rua, ou seja, junto à Casa das Queijadas do Preto, não era a Travessa da Boavista, mas sim Rua do Forno da Cal, dada a existência de um forno mesmo junto ao parque de estacionamento da desta casa de queijadas.

Como já referi acima as pesquisas que efectuei, na CMSintra, Biblioteca Municipal e no Arquivo Histórico da Câmara, não consegui apurar, quando é que foi atribuída a toponímia Albino José Batista, muito menos se se estendeu até Chão de Meninos. Nem tão pouco a empresa que fez as placas toponímicas, Cerâmica Isabel Garcia, me conseguiu esclarecer. A ser verdade que a Travessa da Boa Vista se estendia até à Casa das Queijadas do Preto, também faria sentido, não só devido à existência da Quinta da Boavista, mas também porque que nalguns locais da rua é possível ter uma excelente vista, para Norte e Poente. À vista desarmada é possível ver as Berlengas, o Convento de Mafra e a serra de Montejunto.

Diz o povo e muito bem, como posso confirmar, que quando daqui se avista as Berlengas (normalmente a bruma ou o nevoeiro o impedem) é sinal de chuva o que é verdade.

Para baralhar ainda mais esta história, um contrato de promessa de compra e venda, datado de 30 de Novembro de 1979, que também consultei, faz-se referência a um mesmo imóvel, como estando em ruas diferentes. Efectivamente o promitente-comprador era o arrendatário do andar superior, é referido no contrato como estando sedeado na Rua Albino José Batista e o imóvel completo, é referido no mesmo contrato como estando sedeado na Rua Bairro dos Ingleses.

Em resumo; Parece não existir dúvidas que a Rua Albino José Batista recebeu esta toponímia devido ao facto de este comerciante aqui ter vivido e não teria a extensão atual. Anteriormente seria era designada por Rua Campo do Arrabalde, conhecida popularmente por Rua do Bairros dos Ingleses. Mais tarde, penso que nos anos 70, especulo eu, que a CM de Sintra terá constatado que a residência do referido comerciante estava localizada não na rua com o seu nome, mas sim na Travessa da Boavista ou Rua do Forno da Cal e resolveu prolonga-la. Lembro perfeitamente de ser colocada a placa toponímica junto à Casa das Queijadas do Preto, ainda que não consiga datar o acontecimento.

Já que a Rua principia junto ao jardim da Vigia e porque estamos a falar de uma contadora de histórias invisual, vai para 10 anos, no decorrer das conversas, a mesma perguntou-me pela pedra dos Cinco Dedos que era visível deste Jardim quando foi inaugurado em Maio de 1939, (ver foto abaixo do local onde foi construido o Jardim da Vigia e onde é possível ver a pedra dos cinco dedos).

Arrabalde.jpg

 

Disse-lhe que a pedra não se vê.

Respondeu-me, que era impossível aquela mão de pedra é tão grande, não me diga que caiu.

Não D. Carlota, não caiu, foram as árvores que cresceram muito e a taparam.

Ficou triste!

Sendo a cegueira uma doença, infelizmente no caso da D. Carlota incurável, ela não esperava que natureza cegasse todos aqueles que ainda vendo, já não conseguem ver a pedra dos cinco dedos.

21
Mar20

Divagações, histórias e estórias sobre as queijadas da Casa do Preto


Vagueando

Introdução

 

90 anos.jpg

 

A ideia de escrever sobre a Casa do Preto há muito que me persegue, mas a inspiração nem sempre acompanha o desejo e assim, este anda por aí a vaguear de neurónio em neurónio, mas não se produz nada de jeito.

Escrever sobre uma casa fundada no século passado, anos trinta, quase 100 anos depois, mesmo tendo conhecido a segunda geração dos fundadores e conhecendo os seus descentes até podia ser fácil. Bastava amassar a história das queijadas com a história da Casa do Preto, deixar a descansar durante umas horas para crescer, de acordo com as práticas de confeitaria e tinha um documento de rigor, feito rapidamente e sem dor, mas desprovido de sabor, humor ou valor.

Mas o que pretendo é divagar no tempo, misturar realidade e ficção, um pouco de verdade e alguma invenção, retratar o passado, trocando as voltas a quem lê, esperando que acreditem ou não, sendo certo que, em qualquer das situações, estão todos à vontade para pensarem o que quiserem, porque não asseguro, não atesto, nem certifico nada do que abaixo vão ler.

Como a casa está quase a celebrar cem anos, e agora tenho todo o tempo do mundo, por causa do coronavírus, obriguei-me a escrever antes que a minha idade fique sem anos de vida para fazê-lo.

Afinal a minha Cédula Pessoal, na parte destinada a registar a manutenção corporal, só vai até aos 85 anos e isto já tendo em conta o actual aumento médio da esperança de vida. Ainda estamos, um pouco longe dos livros de manutenção dos carros em que as revisões vão, normalmente, até aos 100 mil, o que, em termos absolutos, é um número bem mais animador.

Comecemos pela matéria-prima, queijada. No sentido mais comum, trata-se de um doce, enformado em latinhas ou cascas feitas de farinha de trigo e água, recheadas por um miolo feito de ovo, queijo e açúcar.

Queijada também é nome de uma Freguesia em Ponte de Lima e da localidade com o mesmo nome, atravessada pela N201. (ver foto no link abaixo)

Usa-se ainda o termo queijada, embora de forma não tão conhecida, para designar gorjeta, gratificação ou mais a atirar para o calão, quantia que um rufião recebe da amante.

Chão de Meninos

Chão de Meninos a par dos nomes de outras localidades portuguesas é um nome curioso.

Como seria nos anos 30 e porque se chama assim? Estou sempre à espera enquanto vasculho o passado de poder encontrar alguém do além, que me explicasse a razão da atribuição deste nome a esta localidade. 

Nunca o consegui fazer, até porque nunca tive de dotes de medium. Por isso inventei três hipóteses;

  1. A primeira, tem a ver com o facto de chão designar uma zona plana, o que acontece nesta localidade. A pequena localidade de Chão de Meninos é plana e tudo à sua volta é mais alto ou é mais baixo. A nascente, Alto da Bonita, a Poente, S. Pedro de Penaferrim são pontos mais altos e a Norte, a Estefânia, a Sul, o Ramalhão são pontos mais baixos.
  2. A segunda, tem a ver com o facto da palavra chão poder designar local sólido e seguro. É por isso que se diz que ter os pés bem assentes no chão é sinal de prudência e segurança.
  3. A terceira, porque chão também pode significar pequena propriedade, espaço particular pelo que muitas vezes utilizamos a expressão, vou para o meu chão.

Ora ligando o chão a meninos, falta explicar o porquê de meninos. Meninos é uma forma gentil e delicada para designar um conjunto de crianças, mas também usada, informalmente, para designar finórios/espertalhões.

Será então que Chão de Meninos foi um local bom para as crianças (meninos), por ser plano, por ser um local seguro ou por existirem na localidade muitas crianças e o povo, em sentido figurado, atribui-lhes a propriedade do local, dizendo que era o chão dos meninos? Ou será que foi um local onde finórios, espertalhões, burlões, eventualmente da realeza, da nobreza ou do povo, engendravam e praticavam as suas falcatruas?

Imaginem, agora que no local onde está hoje um talho - Nosso Talho, um cabeleireiro - Rute Vieira e uma garrafeira gourmet – Casta 64, existia nos anos trinta, um estabelecimentos de vinhos (vulgo taberna) e que para além de vinhos, ainda vendia carvão e palha.

Pois é verdade, a loja de António Joaquim Moreira, para além da venda desta panóplia de bens, ainda se encarregava de serviços de camionagem, praticava preços tão bons que não receavam concorrência alguma e dispunha de uma camioneta Chevrolet, nova, S-29802, de duplo rodado, de tara superior a 3 mil quilos.

Ver foto  com o Anúncio de António Joaquim Moreira, no Jornal de Sintra, Ano I, nº 33, de 26 de agosto de 1934, onde se pode ler que ficava em frente à Casa das Queijadas do Preto.

Chão de Meninos, no mesmo espaço que fica em frente à Casa do Preto, não serviu só de inspiração para os negócios das queijadas, vinhos, carvoaria e palha. Lembro-me de existir, no mesmo local, outro talho, do Sr Albino, uma padaria, um stand de automóveis da marca Fiat e anteriormente da Austin/Morris, que também tinha serviço de oficina com um letreiro de acrílico, montado num pequeno poste chumbado na parede, da British Leyland. Existia ainda uma pequena casa de reparação de electrodomésticos, conhecida como o Maneta porque o indivíduo que reparava os aparelhos só tinha uma mão. Lembro-me ainda uma pequena venda[1] de legumes.

Chão de Meninos também serviu de mote à cultura e ao espectáculo ao emprestar a sua designação toponímica a uma peça de teatro, levada à cena em 1950, no Cine Teatro Carlos Manuel. Tratou-se de uma comédia do autor francês Marcel Soland, cujo título original era Savez-vouz planter des choux (sabe como plantar repolhos), interpretada pelo elenco dos Comediantes de Lisboa. Esta peça, segundo uma crítica publicada na Revista Seara Nova do mesmo ano, não terá sido um grande sucesso.

A crítica negativa foi publicada na Revista Seara Nova nº 1154/55 de 18 a 25 de Fevereiro de 1950, (Ver foto do texto no link abaixo) por altura do Carnaval, altura em que a peça terá estreado no Teatro Apolo, na Rua da Palma, muito próximo da Mouraria em Lisboa.

O que é facto é que a peça veio a Sintra em Julho do mesmo ano, como se comprova pelo cartaz que faz parte do arquivo da CM de Sintra (Ver cartaz no link abaixo).

O que lá vai, lá vai e agora pouco importa. Importa sim, saber que Chão de Meninos foi um local sólido e seguro para Carlos Almeida fazer nascer e crescer a Casa do Preto e as queijadas neste chão, e assim também honrar Sintra.

Para concluir sobre Chão de Meninos lembro-me, nos meus tempos de juventude, final dos anos 60, princípio dos anos 70, muito antes de o Pão por Deus ter dado lugar ao Halloween, haver muitos meninos, onde me incluía, que naquele chão iam à Casa do Preto ao Pão por Deus, de saco de pano de retalhos na mão, à procura de bolinhos.

Actualização Abril 2022 - Segundo Diogo Nunes Pocariço, no seu excelente livro  Roteiro Histórico de S. Pedro Penaferrim e tudo o que o tempo deixou, a designação de Chão de Meninos está associado a uma lenda que refere - "o facto de as fortunas terem solicitado ao nosso rei "conquistador" asilo para os inocentes filhos que nada tinha com a guerra dos dois contendores. Assim Afonso Henriques ordenou a criação de refugio para estas crianças. Foi assim que mão lusitanas cristãs trataram dos filhos do inimigo, dando-lhes comida, agasalho e segurança, a ponto do lugar ficar com a designação de Chão de Meninos, com que ainda existe.

Chão de Meninos tem assim origem nos tempos da moirama quando Afonso Henriques conquista Sintra aos Mouros. As mencionadas fortunas remetem para as mouras"

 

Casa do Preto

 

Na história das histórias da Casa do Preto, deparei-me com duas versões sobre o seu início.

A primeira refere que Carlos de Almeida, também conhecido por Carlos Russo, mecânico de profissão, não começou por fabricar queijadas. Começou a vender, em 10 de Janeiro de 1933 as que eram fabricadas no Gregório, dia em que também foi fundado o Grupo Desportivo União Colarense, e não terá atribuído de imediato nome à sua casa.

Só mais tarde, ajudado pela tia Maria Helena, que trabalhou numa queijadaria que existiu na Volta do Duche, de Alfredo Januário Gomes, começou a fabricar as suas próprias queijadas. Como Alfredo Januário Gomes faleceu em Março de 1935, ainda que o seu negócio tenha continuado durante algum tempo sob a gestão da viúva, parece fazer algum sentido, que a tia de Carlos Almeida tenha passado a ajudá-lo no fabrico das queijadas dois anos depois desde abrir o seu estabelecimento[2].

Cerca de um quilómetro e picos mais abaixo, em direcção a Sintra, na estrada de Chão de Meninos, junto ao entroncamento do Largo Formigal Morais, começa a Av D. Francisco de Almeida que termina na entrada de Estefânia.

Nesta avenida, mais precisamente nos números 26, 28, 30 e 32, foi inaugurada em 25 de Janeiro de 1934 a casa de móveis, Júlio Campos, com direito a notícia no Jornal de Sintra.

Ver foto no Link abaixo - Noticia da inauguração da casa de Móveis Júlio Campos, Jornal de Sintra Ano I nº 4 de 28/01/1934

Por mais que tentasse não consegui apurar se Carlos Almeida foi convidado pelo comerciante Júlio Campos para a inauguração da casa de móveis, de estilo parisiense, que contou com a presença de vários amigos, a quem, gentilmente, ofereceu vinho do Porto e bolos.

Ver link abaixo -Anúncio da Casa de Mobílias Júlio Campos publicado no Jornal de Sintra Ano I, nº4 de 28/01/1934. No mesmo Jornal de Sintra, na edição do Ano III, nº 137, de 06/09/1936, um anúncio publicado por Júlio Campos destinado a alugar esta loja.

Especulo eu que, pelo facto de se mencionar bolos na notícia da inauguração, que possam ter sido incluídas as queijadas, o produto doceiro típico de Sintra, eventualmente levadas da Casa do Preto ou do Gregório, cujo estabelecimento ficava muito perto.

Contudo, segundo informação obtida no livro de José Alfredo da Costa Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Sintra, Apontamentos Vários, edição da Câmara em Dezembro de 1998, terá sido nessa loja e mais ou menos por essa altura que Carlos Almeida adquiriu a estatueta masculina, de um casal de jovens negros. Achou a figura interessante e como a mesma representava um jovem negro a segurar uma bandeja, colocou-a à porta do estabelecimento, com pacotes de queijadas.

Foi a partir dessa altura, ou seja no ano seguinte à inauguração, que a casa das queijadas ficou conhecida por Casa do Preto.

A proximidade das datas do início da actividade de Carlos Almeida em Chão de Meninos, e a data de abertura da casa de móveis, bem como a referência feita por José Alfredo afirmando que a estatueta foi comprada no início da actividade da venda das queijadas, naquela avenida, leva-me a crer que a compra foi feita naquela loja.

Como curiosidade, cerca de um ano depois, mais precisamente em Julho de 1935, foi colocado o repuxo Real no Jardim da Preta, no Paço da Vila. Se já estão a pensar que se trata da figura feminina que não foi adquirida por Carlos Almeida em 1934, na Loja de Móveis Júlio Campos, estão redondamente enganados. O Jardim da Preta está actualmente, dentro do Palácio Nacional e assim se chama porque tem uma figura em relevo de uma mulher preta e de um pajem em trajes setecentistas e o alto-relevo de um castelo em argamassa que figura nas paredes do tanque de água.

E também na Vila Velha, na Rua do Briamante 1, anunciava-se em 1936, no Jornal de Sintra, o nome de José Preto como o dono da Alfaiataria Popular, que executava fatos de homem e rapaz de forma rápida e perfeita de acordo com os últimos figurinos. (ver anúncio no link abaixo Alfaiataria José Preto, no Jornal de Sintra 153 de 07/01/1937)

A segunda , vem referida no livro de Maria João Figueiroa, Sabores com História, editado em 2013. Segundo esta autora a Casa do Preto foi fundada em 1931, por Carlos Almeida, marceneiro de profissão. Terá sido ele que esculpiu a estatueta em madeira da figura masculina do jovem negro que colocou à porta, momento a partir do qual a casa ficou conhecida por Casa do Preto.

E também no que toca ao fabrico das queijadas é feita também uma referência à esposa de Carlos Almeida, Joaquina Inácio de Almeida que as fabricaria para venda na casa, como também as fabricaria para outros estabelecimentos.

Ainda segundo este livro Carlos Almeida chegou a fabricar umas queijadas mais pequenas, tipo bolo em miniatura, conhecida actualmente por queijada baby, que se destinavam a oferecer aos clientes que compravam 4 ou 5 pacotes de queijadas normais.

Seja qual for a versão sobre o início da casa, certo é que a Casa do Preto para além das queijadas também servia Vinhos Finos, conforme se comprova no anúncio publicado no Jornal de Sintra em 1936.

Ver link abaixo o anúncio Casa do Preto no Jornal de Sintra Ano III, nº 103 de 07/01/1936, onde se publicita a venda de doces e vinhos.

Por motivos de saúde, em 1972, passou o negócio ao seu filho José Rodrigo Inácio de Almeida, também conhecido por José Russo, casado com Maria Teresa Coluna Gato de Almeida.

A D. Teresa Almeida, esposa de José d’Almeida era uma mulher alta e sempre sorridente. Era daqueles sorrisos que não se escondem porque mesmo que tapasse a boca o sorriso continuava bem visível nos olhos.

Lembro-me de a ver espalhar alegria por todo o lado, fosse atrás do balcão ou fora dele. Falava com as pessoas sempre em modo alegre e divertido, nunca me recordo de lhe ver qualquer sinal de tristeza.

Terá sido sob a sua iniciativa que a casa passou a oferecer outros bolos para além das queijadas.

Em meados dos anos 70, se a memória não me atraiçoa, mandou fazer umas batas para as suas empregadas. Queria não só evitar que estragassem a sua roupa, como tornar a actividade no balcão mais higiénica e ao mesmo tempo passar uma imagem mais apelativa e uniforme da casa aos seus clientes.

Como era muito amiga de uma modista na Qtª da Fonte Longa, bem próxima do estabelecimento, encomendou -lhe uma série de batas e, durante alguns anos, o acordo foi-se mantendo.

Mantinham uns diálogos muito interessantes sobre os custos das batas.

A D.Teresa achava que a modista cobrava muito; Dizia que costurar uma bata era só fazer uns cortes em viés, chulear, fazer uns arremates e bainhas e um carrinho de linhas dava para cozer uma série de batas.

A D. Isilda defendia-se, dizendo que tinha que dar muito ao pedal da máquina de costura, que os aviamentos[3] eram cada vez mais caros e tinha que ir a Lisboa, aos armazéns do Chiado, para comprar tudo. Segundo a modista, Sintra não tinha uma grande variedade de aviamentos para costura de qualidade. E rematava: A D. Teresa julga que a costura rende tanto como o seu negócio, junta meia dúzia de ovos, meio quilo de açúcar e farinha, pega na batedeira eléctrica e tem uma fornada de bolinhos!

Riam-se as duas, a D. Teresa pagava o que lhe era pedido e a D. Isilda continuava a ir beber todos os dias o seu café à Casa do Preto e a comer um bolinho.

Para quem desconhece, a modista, Isilda Martins, foi aluna diplomada com 20 valores, pela famosa Escola de Corte e Alta Costura da Madame Justo, inaugurada por volta de 1930.

Madame Justo fez questão de enviar a um jornal da época, no final do curso, a notícia de tão brilhante aluna.

Ver no link abaixo a notícia publicada num jornal da época, sobre a modista Isilda Martins

A D. Teresa D’Almeida tinha orgulho na casa e na forma como as empregadas se apresentavam, pelo que as batas foram uma novidade quer ao nível do design quer ao nível da qualidade.

Numa altura em que não havia exigências da ASAE, nem programas de marketing, muito menos redes sociais fundamentalistas da imagem, a D. Teresa apostou na inovação da sua ideia e na qualidade da modista, da qual também era cliente pessoal.

Se Chão de Meninos já é uma história, a Casa do Preto faz parte da história desta localidade e, para além de ser uma referência da doçaria sintrense é uma marca que marca o local há mais de 80 anos.

Situa-se um pouco antes do Km 12 da Estrada Nacional 9. Curioso é que esta estrada, também conhecida por Estrada de Chão de Meninos, exista um marco com a indicação de que se trata da EN9 mas não é. A estrada, actualmente, é a N249. E antes de ser N9 e agora 249, numeração que julgo ter vindo com o plano rodoviário de Duarte Pacheco, foi a Estrada da Variante, como se pode comprovar por fotos com anúncios da Casa do Preto, publicados no Jornal de Sintra 

Ver foto do marco do Km 12 da EN 9 colocado um pouco abaixo da Casa do Preto quem segue em direção a Sintra. Estes marcos desapareceram na voragem dos tempos e do progresso, pelo que este é o único existente no trajecto entre Cascais e Sintra. No mesmo link pode observar um anúncio da Casa do Preto situada na Estrada da Variante.

Foi na N9 dos anos 60 e 70, junto ao marco do KM 12, que me lembro de ver, à beira da estrada vendedeiras a apregoar os belos morangos de Sintra e miúdos (lá estão os meninos), aos fins-de-semana a fazer uns trocos vendendo ramos de acácia florida, apanhados na Quinta da Fonte Longa.

Para além disso a Casa do Preto sempre foi como um farol para os automobilistas; Quando se queria explicar como encontrar Sintra a frase típica era: Chegas ao Ramalhão, (onde curiosamente João Carlos, irmão de Carlos Almeida, chegou a vender queijadas e onde hoje funciona o posto de combustível da BP, anteriormente da Mobil) passas a Casa do Preto e depois é só seguires a estrada até encontrares Sintra.

Ainda hoje, para quem não tem ou não gosta de GPS, se explica desta forma a quem quer chegar a Sintra.

Ver foto do Posto de combustível do Ramalhão em 1957,  no link abaixo, foi obtida em https://restosdecoleccao.blogspot.com/2014/06/mobil-oil-portuguesa.html

A Casa do Preto também funciona como ponto de encontro. Muitas pessoas combinam reunir-se no Preto, aproveitam para tomar um café e seguem o seu destino. Fica na Rota de Peregrinação a Fátima, onde os peregrinos, normalmente provenientes do início da caminhada no Estoril, fazem ali a sua primeira paragem, onde se abastecem com umas queijadinhas para tornar a caminhada mais doce.

Uma estória dentro da história

Em Novembro de 1934 era publicado um texto no Jornal de Sintra, na rubrica De Lápis Afiado, assinada por Medijor (pseudónimo de António Medida Junior), uma história com o título “Joaquim das Queijadas”.

Joaquim das Queijadas era a alcunha de Joaquim Prudêncio, cuja mãe fabricava queijadas. Era conhecido de todos em Sintra como figura típica, rebelde e popular. Bebia uns copitos e mendigava tostões para efeito ou para os cigarros.

Os saloios usavam uns barretes negros e o Joaquim chamava-lhes sacos de café e por isso os saloios quando o viam, tratavam de os tirar e esconder.

Um belo dia um petiz vai encher uma bilha à fonte da Vila e acaba por cair lá dentro. O amigo Joaquim em vez de ajudar o pequeno não parava de rir alarvemente, sendo criticado por ter tirado a bilha e não ter ajudado o rapaz. Joaquim calmamente afirma que não ajudou o pequeno porque assim ficou lavadinho e parecia novo, para além de que, bilhas daquelas havia pouco e rapazes havia muitos. E ainda se virou para o menor que tremia de frio, e disse-lhe - esfrega as orelhas porco, palerma!

Ver foto de saloios com o seu barrte negro, obtida em http://trajesdeportugal.blogspot.com/2013/10/o-trajo-saloio-o-habito-faz-o-monge.html

Faleceu aos 72 anos e António Medina Júnior volta escrever no Jornal de Sintra “A imagem do castiçamente popular do popularíssimo Joaquim das Queijadas faz falta à terra porque deixa vago o seu lugar nas ruas de Sintra.”

Nota final

Esta é a história que conheço sobre a Casa do Preto.

Uma parte desta história vivi na primeira pessoa. Outra parte resulta da leitura de várias obras que foram mencionadas, bem como consultas efetuadas na Biblioteca de Sintra ao Jornal de Sintra. Também recorri à imaginação sem qualquer preocupação de rigor científico ou histórico.

A Casa do Preto limitou-se a usar a ausência de cor (que alguns designam por preto), com o branco (que alguns designam como a reunião de todas as cores), para criar a sua marca, o seu logotipo e o seu papel de embrulhar queijadas.

Eu depois de muito ler e reler esta história, agora que cheguei a acordo com a minha consciência, decidi pô-la preto no branco.

Desejo que a Casa do Preto, assim que este maldito vírus esteja debelado, continue a ser um local onde as pessoas se encontrem, sejam bem-vindas, bem recebidas, respeitadas e que as suas queijadas continuem, por muito tempo, a fazer parte da história de Chão de Meninos e de Sintra.

Entretanto, em 13 de Maio de 2021 - A Casa do Preto fez 90 anos. Parabéns

Link para as fotos referidas no texto

https://photos.app.goo.gl/kba7RyHmnGqF2Se6A

 

[1] Venda – Termo que se usa também para designar pequena loja, casa de pasto, mercearia, taberna. Noas anos 60 existiam, em especial no Algarve rural, muitas vendas que incorporavam no mesmo espaço uma taberna e uma mercearia.

[2] Informação obtida no livro de Raquel Moreira, Queijadas de Sintra um doce regional, da Colares Editora e ao blog Rio das Maçãs.

[3] Nome que se dá aos elementos que são pregados à roupa, como miçangas, fivelas, entretelas, fitas, botões, linhas, cós, galões e fechos éclair.

 

 

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