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Generalidades

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14
Nov21

Pandemia, ambiente e a liberdade que vamos perder


Vagueando

(Uma receita, elaborada por um chef sem tachos, onde se recorre a uma batedeira manual que ajuda a misturar, conceitos e ideias (se calhar pré-concebidas), para fazer sair uma sopa (talvez uma mixórdia) a consumir fria em nome do ambiente ou, se preferirem, em nome do custo do gás ou da eletricidade.

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A crise económica de 2008 serviu para por na linha quem foi “empurrado” para contrair crédito a rodos e assim, alegadamente, passar a viver acima das possibilidades e mostrar aos que acreditavam no mundo livre e nas teorias de mercado e da globalização que, afinal, a riqueza deve ser distribuída com parcimónia para alguns e à bruta para muito poucos.

Pagar impostos era (se calhar ainda é) para tansos, porque quem não era  podia (se calhar ainda pode) sempre recorrer a uns planeamentozinhos fiscais.

A evolução tecnológica e digital, a par da inteligência artificial tem vindo a receber largos apoios públicos (ou seja dos impostos pagos pelos tansos) pelo Mundo fora sob a capa dos ernormes benefícios futuros para a sociedade. Ou seja a maioria dos que pagam impostos hoje estão a financiar a sua pobreza de amanhã porque não vão ter trabalho.

O potencial de conhecimento de quem domina e vai dominar estas novas tecnologias, deixarão os Estados sem qualquer tipo de capacidade, pelo que serão meros moços de recados deste novo poder.

A pandemia, com origem, natural, criminosa ou acidental, está a ser um grande teste no até onde se pode ir ou melhor até onde se pode pisar, as pessoas e os seus direitos, depois de na crise anterior se ter testado a teoria do ai aguenta, aguenta, aguenta.

Assim se avançou rapidamente para o teletrabalho o que, por si só, introduz duas novas realidades;

A primeira,  distância física entre pessoas da mesma empresa, aumenta o individualismo, reduz a capacidade organizativa/reivindicativa dos mesmos e segunda,  limitação de circulação das pessoas em geral, não mais é do que colocar pessoas em prisão domiciliaria e matar pequenos negócios nas cidades.

O mais curioso é que isto não é feito contra vontade das pessoas mas sim a pedido destas.

Falta falar do ambiente onde, mais uma vez, somos nós que estamos a exigir mudanças drásticas, algumas impossíveis de levar a cabo a curto prazo.

A grande moda ambiental, para que não percamos nada do que tínhamos antes são os carros elétricos. Tornaram-se uma realidade. Quem os compra tem a perceção de que está a fazer um bom negócio, quer do ponto de vista ambiental quer do ponto de vista financeiro, mas ainda queremos mais, exigimos que muitas empresas deixem de usar combustíveis fósseis, tornando-nos assim dependentes de apenas uma forma de energia a eletricidade.

Não deixa de ser curioso uma notícia que li há poucos dias em que um executivo de uma empresa de voos privados afirmava estar a ter sérias dificuldades em encontrar aviões para expandir a sua frota.

Mesmo depois de ter firmado a compra de 65 novos aviões a empresa tinha sido obrigada a cancelar vendas de blocos de horas de voo por não conseguir acompanhar a procura.

Pode ser lido aqui - https://executivedigest.sapo.pt/fabricantes-com-dificuldades-em-acompanhar-crescimento-do-mercado-de-aviacao-privada/

Referiu ainda este executivo, estar a comprar tudo o que aparece para fazer face ao crescimento anual de 30%. Isto porque os seus clientes, mesmo após um maior controle sobre a pandemia, reconheceram as vantagens da aviação privada. Até eu, que nunca fiz um voo privado na minha vida, reconheço as vantagens, grande novidade.

Portanto o ambiente é isto e mais umas manifes de jovens crentes (e bem na vida), cimeiras para debater a coisa ambiental em que todos os participantes viajam de carro eléctrico ou de bicicleta movida a pernas (também já as há elétricas porque pedalar à moda antiga era muito poluente), de parapente, para os que se deslocaram de mais longe e só se alimentaram com refeições de tofu e água. Nada de sopa da pedra, porque as pedras são para estar onde sempre estiveram. Se estou a mentir, alguém que atire a primeira pedra.

E nestas cimeiras saem soluções muito interessantes, a maioria ninguém as vai cumprir, mesmo os gajos da manifes anti tudo.

Não obstante, aquelas soluções fáceis de implementar, como por exemplo não engomar a roupa que se veste (sempre é mais chique andar de camisa engomada com umas calças rotas que custaram os olhos da cara) ter um dispositivo em casa que aproveite a água de lavar fruta e saladas para um depósito que sirva para regar ou para a máquina de lavar roupa e louça ou até usar uma torneira que, ao ser aberta para a água quente faça retornar a água fria à canalização até que esta lhe chegue quente, não se vê nada disso.

Imaginem que a Madonna, o Cristiano Ronaldo, o Tom Cruise, começavam a sair à rua com roupa não engomada, quantas emissões de CO2 se evitariam e quanta electricidade se pouparia.

Que me perdoem os fabricantes de ferros de engomar!

Quando o dinheiro deixar de circular e/ou as criptomoedas deixarem de ser apenas um instrumento especulativo e passarem a ser moeda oficial, bastará uma crise como a de 2008 para que a maioria das pessoas fique sem nada, porque não tinham umas notas debaixo do colchão. Uma crise não é como o Natal, que é quando um homem quiser, a crise é quando alguns homens decidirem que tem que ser. Que me perdoem as mulheres!

Dizem que o tempo não volta para trás, mas desconfio que desta vez é que vamos viajar para trás no tempo, para a altura em que andávamos descalços, vivíamos em barracas, sem electricidade nem água canalizada, onde uma carroça puxada por um burro já era um sinal exterior de riqueza, cultivava-se umas batatas e umas couves, algumas já eram de bruxelas, e sem o PAN podemos sempre ter uns porquitos e galinhas para matar e comer.

01
Jul20

Não é minha, não é Tua, acabou, fim de linha


Vagueando

Os comboios foram o primeiro meio de transporte público que conheci. Primeiro de Sintra até Lisboa, Ida e Volta.

Depois para o Algarve e, lá chegado, não tinha nem táxi nem uma camioneta de carreira que me levasse até ao destino final. Era uma carroça que me esperava, para percorrer cerca de 10 km, entre a estação de S. Bartolomeu de Messines e a casa dos meus avós.

As viagens de comboio eram longas, penosas, desconfortáveis, mas divertidas. As pessoas tinham tempo para, sem telemóveis a distraí-las, olhar umas para outras, conversar, comer e até dividir o farnel que levavam, naquela altura, há 50 anos atrás, não existia a carruagem bar/restaurante.

Na época, o detergente OMO lavava mais branco. Contudo, uma camisa branca, vestida à entrada do comboio na estação do Barreiro, chegava a S. Bartolomeu de Messines negra e dificilmente voltava a ser branca, mesmo lavada com OMO. As locomotivas a vapor largavam uma fumarada impressionante e como não havia ar condicionado nas carruagens, viajava-se de janelas abertas,  o fumo  penetrava nas mesmas e, com especial agressivade, dentro dos túneis.

Vem tudo isto a propósito de ter descoberto no meu arquivo, um filme - ver link abaixo - realizado por mim, em 1993, na Linha do Tua, linha essa que despareceu para dar lugar à Barragem do Tua.

São cerca de 5 minutos de filme, muito amador, mas com direito a música de fundo. Também os intérpetres da música  Barcelona, Monserrat Caballé e Freddie Mercury, já não estão entre nós.

A linha foi submersa pela subida das águas do Rio Tua depois da construção da Barragem com o mesmo nome, inaugurada em 2011.

Com o fim da linha, foi o fim de linha para a beleza desta paisagem selvagem e arrebatadora. Deixou de ser minha, deixou de ser Tua, deixou de ser nossa. 

Em 2018 regressei ao Tua onde a imponência da barragem me deixou atrofiado. A ponte rodoviária que aparece no final do filme que me parecia alta, parece agora minúscula, esmagada pela altura da barragem. 

Nunca me interessei muito pela barragem, nem pelas polémicas relativas à sua construção, mas ao reviver este filme, fui dar uma vista de olhos à história da sua construção e constatei que o arqueólogo Armando Sabrosa, morreu em 27 de Maio de 2006, quando participava num estudo de impacto ambiental, ao cair numa escarpa na zona das Fragas Más.

Fiquei incomodado porque andei a caminhar por vários trilhos do Tua, incluindo o Trilho das Fragas Más e dei comigo a pensar, como é que tanta beleza natural consegue esconder as marcas de dor que deixaram na família deste arqueólogo.

Recomendo que vejam também um filme, Pare Escute e Olhe de Jorge Pelicano, lançado em DVD em 2010 e que constitui um bom documentário sobre esta linha que;

A linha já não é minha, não é Tua, não é nossa, sobra a repressão imposta ao Tua. 

É a vida!

 

Links;

Filme

https://youtu.be/lGuqXDkejhs

Fotos do Trilho das Fragas Más

https://photos.app.goo.gl/zKPE8zvnrgTgbAmG6

 

 

16
Set18

A casa dos meus avós


Vagueando

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Guardamos da infância os melhores momentos  da nossa vida. O que parecia mau e que não era afinal assim, parece-nos agora normal. A vida amadurece-nos, deixamos de ver só para a frente, passamos a ver ao lado e depois até atrás e finalmente a 360º.

A casa dos meus avós respira amor, ternura, nostalgia, fala sem saber línguas, sem ter boca, mostra-se sem possuir uma tela ou ecrã onde possa explicar o que viveu. Não tem emoções, mas desperta reações emotivas, contidas ou quem sabe extrovertidas.

Chegar aqui, onde vivemos parte da infância, perder a conta aos ainda poucos anos que ainda contámos, quando ela,casa, tem mais de cem  anos bem contados é como mergulhar na história familiar sem perceber.

É estranho, é fantasmagórico, é surreal mas também é tonificante. As cenas que guardo são dispersas e impedem-me de alimentar uma história que dignifique a obra feita.

Como se pode contar a história de mais de cem anos contados sem saber tudo o que contar, não estive lá sempre a observar. Que estórias guardou esta casa, que estórias pode contar?

As gerações que por aqui passaram antes de deixar a vida, deixaram suor, lágrimas, alegrias e tristezas, muito por desvendar, histórias que não se encontraram com o papel ou com o computador para alimentar a memória dos que ainda cá estão e dos que virão.

Mas está cá tudo, não se tapou, nem se enterrou nada. Descobriu-se as paredes, estão à vista, mas o que ainda estará invisível? É necessário paciência, igual à que já houve e maior do que a existente para desvendar, ou melhor deixar em papel, o que lá está e o que lá esteve.

Cada uivo do vento, cada bater de porta, cada ranger das dobradiças, cada estalo da fechadura, são sons que nos habituámos a ouvir e a sentir. Cada passo, cada porta que se abre ou se fecha, por nossa iniciativa ou pela força do vento, trazem sempre recordações e sentimentos.

Cada dia, cada noite, desfiam os momentos, alentos e tormentos, discussões sobre o solo do pão e o solo da terra. Se o primeiro se queimava porque as tocas não eram bem molhadas e o forno era mal varrido, o segundo era, nem mais nem menos, o barro vermelho que torrado ao sol se transformava em poredo, que nos sujava, quando suados, caminhávamos nas veredas e transpúnhamos os valados existentes.

Estou aqui agora a escrever e a ouvir sons que já não existem mas que se sentem. As ovelhas no palheiro, a mula a bater os cascos com fome, os pintainhos atrás das galinhas que escramalhavam o milho que secava no eirado. Os porcos que roncavam, ansiando por  tremoços e pelas farrobas que secavam ao lado do milho no mesmo eirado.

Ouvem-se passos e vozes do tio Zézinho, da tia Catrina, da prima Lurdes, do primo Manel e da Géninha. A velocidade do som faz com entre rapidamente em casa pelo lado Sul, para conversas animadas e divertidas. Eventualmente combina-se uma ida à praia, de carroça, logo cedo para escapar à calma do meio do dia.

Ouço os sons das muitas carroças a matraquilhar as pedras das veredas e das estradas de terra, pedra e buracos, que eram mais caminhos de cabras. Já não se vêm carroças, nem malhins a brilhar, nem tão pouco os condutores a apertar os breques nas descidas para não forçar os animais a segurar aqueles carros pela barrigueira.

Estou aqui a matutar enquanto descanso e a ouvir, mesmo já surdo, quem dizia que a louça estava em número um, ou que um homem atrapalhado é pior que uma mulher bêbeda. Oiço discussões por causa das regas, das ovelhas, dos marcos, que também são conhecido por mogos. As mesmas terminam em paz nas conversas ao jantar composto por cozinha de batatas, carapaus alimados, azeitonas, presunto, requeijão, queijo de cabra, pão e a salada com pepino, tomate e alface.

Ouço a mota do pexeiro e sua buzina de fole. Traz peixe, alegadamente, fresco de Almufeira e também seco pelo sol e pelo sal, que não se vendeu nas voltas e dias anteriores.

Sentem-se os cheiros, dos chouriços, dos ovos estrelados diretamente nos pratos de alumínio, dos queijos e requeijões e do palheiro. Misturavam-se na casa como se procurassem a fórmula de um perfume nunca inventado mas que podia ser fabricado. Seria hoje um perfume rural delux. Estou a imaginar, a vender por todo o lado, sempre acompanhado de slogans publicitários que o fariam sentir-se idolatrado.

Nesta altura até parece que a casa está assombrada, não está, mas é um assombro que poucos conseguem ver, sentir, conhecer, fruir e admirar.

A falta de luz elétrica, um mal da época, com o calor do Verão permitia-me dormir na rua com as estrelas como lençol, identificar as constelações, a estrela polar e a via láctea.

Era a falta de desenvolvimento o desinteresse pelo mundo rural, a falta de expectativas, era trabalhar para a subsistência. Os anos passados, ainda que já contados, não contam os mais de cem anos desta casa.

 

Recomenda-se o uso de um dicionário de termos algarvios para entender melhor a história ou a estória.

Os nomes foram ficcionados.

 

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