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Generalidades

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03
Set22

As veredas


Vagueando

O meu avô, homem de perna alta, de passo vivo e cadenciado era caminheiro profissional, era esse o seu único meio de para se transportar entre lugares.

Quando o acompanhava, ainda jovem, era obrigado a fazer pequenas corridas para o conseguir acompanhar. Sem hesitações nos cruzamentos e entroncamentos de veredas palmilhávamos quilómetros por entre casas isoladas, conhecidas por montes, povoações minúsculas e pequenas aldeias.

Afugentava os cães que se atravessavam no caminho que, ao contrário do ditado, ladravam e mordiam. Os cães não o apoquentavam, tinham-lhe muito respeito, por mais ferozes que parecessem, fazia-os sempre fugir, se fosse necessário à pedrada. Nunca me lembro de ter levado uma dentada, fosse de que cão fosse.

Quando se ia a uma povoação maior o meu avô dizia que se ia ao Povo. Era lugar onde se via muita família (sinónimo de muita gente) e onde existia um mercado e, de tempos a tempos, uma feira, que estava ali, encostada ao Povo onde se vendia gado (porcos, bois, vacas, burros, mulas) e no meio desta, o gado organizado de forma desordenada, circulava gente curiosa como eu e quem queria fazer negócio.

Aprendi com ele o significado das veredas e o prazer de caminhar nelas. Recordo neste texto, que ele reconhecerá, mesmo sem saber ler e sem ter acesso à Internet, nem ao mundo dos vivos, as nossas caminhadas.

Dizia-me que a vereda era um caminho estreito, da largura do espaço que uma pessoa precisa para caminhar e que se aprendia a segui-la, com o tempo e a experiência. Não havia indicações nem tabuletas (também se as houvesse poucos saberiam lê-las) com as direções ou destinos a seguir, não havia GPS, era tudo de memória. Cada pessoa guardava na sua cabeça uma série de veredas que davam a acesso a todos os lugares para onde precisavam de ir.

Se fosse necessário seguir até um local novo, esse mapa mental não tinha gravado o caminho, mas sabia a direção, se para Norte, se para Sul, se para Este ou Oeste e, com base nesses quatro pontos cardeais, se escolhia a vereda certa para onde se queria ir pela primeira vez. Sempre que a vereda se dividia em duas três ou mais direções a escolha era racional, bastava olhar para o Sol que nos dava um dos pontos cardeais e, a partir daí tudo era fácil. As veredas nunca se enganavam, muito menos eram capazes de enganar alguém, até porque, quem as observava também não se deixava enganar.

Grandes duplas formavam as veredas e as pessoas que nelas caminhavam, verdadeiras equipas recheadas de estrelas ou não fosse o Sol uma bela estrela.

Dizia o meu avô que a vereda era o melhor caminho, o mais curto, o mais belo, o mais conversador, sim aparecia sempre alguém em sentido contrário com o mesmo espírito, ir de um lado ao outro, pelo caminho mais curto e mais belo, mas com tempo para dois dedos de conversa. Contudo, estas conversas nunca incluíam qualquer pergunta sobre o caminho a seguir, toda a gente seguia o seu próprio caminho.

A vereda era o caminho de todos, para todas os destinos, que passava por todas as casas, aldeias, serras, rios, fontes e riachos.

As pontes eram raras, as que existiam eram improvisadas e, obviamente, estreitas. Mas quando não estavam lá, a dar a passagem para a outra margem, eram as poldras que nos transformavam em equilibristas e só com muito malabarismo se chegava com os pés secos à outra margem.

Quando, era preciso transportar alguma coisa, por exemplo água, o burro seguia a vereda com o meu avô atrás sem que fosse necessário indicar-lhe o caminho. Quando se lhe montavam as cangalhas em cima da albarda onde se anichavam dois potes de barro, ele sabia que era para ir ao poço. As veredas também nunca enganavam os burros, até porque, tal como os homens, eles também não se deixavam enganar.

As veredas eram caminhos abertos pela passagem de muita gente a pé, não estavam sujeitos a planos das Juntas de Freguesia nem das Câmaras, não exigiam expropriações, nem projetos, nem autorizações dos proprietários dos terrenos onde passavam. Eram pura cooperação entre vizinhos e afastados. Eram tão-somente isso, serventias, o espelho das necessidades das gentes do Algarve para comunicar entre si e identificavam-se por uma ténue linha sem vegetação, composta por pó vermelho, tão característico do Algarve, que parecia fumegar debaixo dos nossos pés, tão fino que espirrava debaixo dos sapato a cada passada.

A vereda era uma linha simples, umas vezes reta, outras vezes curva, outras vezes às curvas e contracurvas para contornar obstáculos como árvores, silvados, desníveis e pedras, trabalho de muitos passos, de muita gente que não passeava por ali, mas passava por ali, muito antes de mim e do meu avô, há vários anos, várias gerações de passos deixando a sua pegada, muito ecológica, em tantos quilómetros de veredas.

As veredas eram a marca, de muita gente, dos seus destinos, das suas histórias e das suas estórias dos seus encontros e, porque não dizê-lo, dos seus medos, frustrações, raivas e alegrias tudo registado naquela fina falta de vegetação e da transformação da terra dura em pó fino de tanta pisadela que levou.

A vereda tinha sempre acompanhamento musical, ora dos grilos e cigarras ora da passarada que saltitava de árvore em árvore, de pedra em pedra, do tilintar dos chocalhos dos rebanhos e ainda tínhamos espetáculos de cor, movimento e luz. Borboletas multicoloridas esvoaçavam à nossa volta, as nuvens que filtravam o sol e nos faziam sombra, alteravam a cor da paisagem, cenas fantasmagóricas provocadas pelas trovoadas ou molhadas, se instalavam ali mesmo por cima de nós e os relâmpagos que nos faziam temer vir a servir de para raios entre a descarga e a (terra da)vereda.

As veredas também tinham cheiro, consoante a época do ano, a esteva, a figos, a amêndoa, a terra molhada, quando chovia no Verão, a trampa de ovelha, mula, de burro e de cão. Não é possível reproduzir estes cheiros num texto, mas estas misturas ao ar livre nem sequer se pode dizer que fossem desagradáveis, faziam parte do caminho e pronto. Se algum algarvio, com mais de 50 anos, ler este post, é bem capaz de imaginar e de sentir os cheiros que aqui descrevo.

Nas veredas foram ficando histórias de homens e mulheres, crianças e adolescentes, amores e desamores e de tantos pastores que aliviaram as dores e o cansaço, esperando sentados nalgum valado já meio descambado enquanto as suas ovelhas pastavam e saltavam, vezes sem conta aquela valado, escramalhando (sinónimo de espalhar, fazer cair) o alinhamento das pedras que o compunham. Assim tivéssemos aprendido a ler terra pisada e teríamos extraído dali, daquela linha estreita, muito conhecimento.

Aprendi a gostar de caminhar naqueles caminhos de pó vermelho, tão característico do Algarve, chamava-se-lhe “poredo”, adorava bater os pés contra aquele pó fino, espalhando-o pelo ar, sujando os sapatos e as calças, enfim, mostrar aos graúdos que tinha feito uma grande caminhada. As veredas eram caminhos de movimento, ambientalmente sustentáveis, por lá passavam, pessoas e bestas, mulas e burros, que cabiam naquela estreitíssima largura de caminho onde nem as pegadas ficavam visíveis , porque tudo eram só montinhos de pó, completamente desalinhados.

Se encontrar uma vereda (se calhar conhece-a por trilho) palmilhe-a, observe-a, deixe-se encantar, siga-a. No fim não vai encontrar o caldeirão de ouro, mesmo que o arco íris a intersete nalgum ponto, mas vai encontrar histórias e, quem sabe, ainda vai descobrir que alguém da sua família, mais próxima ou mais afasta deixou ali a sua pegada há muito, muito tempo.

As veredas morreram, porque já ninguém anda a pé por necessidade, porque as bestas foram impedidas de trabalhar e os rebanhos também praticamente desapareceram.

As veredas deram lugar às estradas, onde não passeiam pessoas, nem bestas, nem rebanhos e as estradas estão reservadas aos carros que levam as pessoas aos seus destinos, muitas vezes conduzidas por bestas.

22
Abr22

Dia da Libertação


Vagueando

20220422_183550.jpg

 

Caiu a obrigatoriedade de se usar máscaras.

Já podemos sorrir, cumprimentar, falar, comunicar mesmo calados.

O nosso rosto voltou a ter o importante papel que sempre teve e que consiste em reconhecer-nos uns aos outros, sorrirmos uns para os outros.

Ainda me lembro dos confinamentos, do medo e das portas fechadas (ver aqui https://classeaparte.blogs.sapo.pt/as-portas-15637) sem que aparecesse alguém com vontade de as abrir ou fechar.

Portanto, desculpem a repetição, hoje é dia de celebrar a Liberdade.

Liberdade para respirar não é assim uma coisa de somenos importância. Afinal durante a pandemia o medo não era sair à rua, o medo era de respirar. E isto de deixar de respirar não é bem a mesma coisa do que decidir parar de fumar.

Com a máscara respirávamos em modo de segurança e, mesmo assim, durante a pandemia, vi muita gente a passear nos trilhos da Serra de Sintra com a máscara posta e, quando se cruzavam comigo em vez de inspirarem com convicção, ficavam convictos de que respirar podia fazer muito mal à saúde.

Permitam-me pois celebrar este dia como o Dia da Libertação, porque na minha voltinha pedestre de fim de tarde, até a Natureza nos brindou com as cores da foto acima.

Espero que o PCP não considere um insulto que eu, cidadão anónimo, independente, na medida em que não sou, nem nunca fui filiado em nenhum partido, ter decidido, sem lhe pedir licença, que hoje é dia de Liberdade e um dia a festejar.

10
Mai20

Sinal de Vida


Vagueando

 

Este é o título de um romance de José Rodrigues dos Santos.

A história, apaixonante, começa com a figura de Thomas Quinn, estagiário do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) sedeado, segundo ele, num buraco nos EUA, mais precisamente em Hat Creek (Califórnia), onde está instalado Allan Telescope Array, uma rede de escuta astronómica.

Thomas Quinn estava encarregado de analisar as resmas de folhas diárias contendo os dados captados por 42 antenas que cobriam as frequências de rádio dos 0,5, aos 11,2 gigahertz em busca de vida extraterrestre. Esta rotina diária, estava frustrá-lo ao ponto de ter perdido a fé de encontrar fosse o que fosse.

Até que um dia, um sinal vindo de Tau do Sagitário, na banda de 1,42 gigahertz fez disparar o coração de Thomas Quinn e do seu chefe.

Tinham descoberto um sinal de vida.

Sinal de Vida

Este é o título de um post de Vagueando, que sou eu.

A história, arrepiante, começa no dia 11 de Março do corrente ano, quando Tedros Adhanom Ghebreyesus, nessa malfadada tarde, declarou que o surto do novo coronavírus tinha atingido o nível de pandemia. Nesse dia, juntamente com a minha mulher e um amigo, apanhei um autocarro de Sintra para Mafra, de onde regressei a pé para Sintra. A distância de 28km que já percorri várias vezes, não em busca de qualquer sinal extraterrestre ou divino, mas pelo prazer de caminhar pelo campo onde os sons estão próximos dos captados pelas antenas do Allan Telescope Array, com a vantagem de estarmos perto de tudo e longe de tudo o que chateia, nomeadamente a poluição sonora e do ar.

Já em Nafarros, depois de passarmos junto a vários aldeões que cuidavam do seu pedaço de terra e nos saudavam efusivamente, como se fossemos os seus vizinhos mais próximos e garantiam que por ali não andava vírus nenhum, fizemos uma pausa no União Cultural e Desportivo de Nafarros, onde saboreámos um prego acompanhado de um fino. Ali mesmo, assistimos na TV à declaração da pandemia.

A partir daí foi o pandemónio, que se conhece, fechámo-nos em casa e ficámos todos à espera, tal como o Thomas Quinn, de sinais.

Estes sinais, ainda que dados e explicados por especialistas de toda a espécie, lançavam mais dúvidas do que esclarecimentos.

No final de cada dia, em família e em conversa telefónica com os amigos tentávamos, tal como Thomas Quinn, apanhar um sinal diferente que nos desse conforto, alegria e esperança.

Nada!

Durante estes dois meses, fui mantendo a minha actividade, ou seja andar a pé, à volta de casa, e dei conta de que, mesmo nos locais onde estava habituado a ver multidões, não via qualquer sinal de vida(ver fotos no link abaixo).

https://photos.app.goo.gl/7ud9FPmDpJX9S6VS6

Agora que parece existir algum alívio ou talvez não, nas minhas saídas para fazer exercício, vi um sinal de vida. (foto abaixo)

20200505_175320.jpg

A primeira loja aberta em Sintra após a declaração de pandemia. Só faltam os clientes

A diferença entre o Sinal de Vida de JR Santos e o Sinal de Vida que eu vi, é que a história de JR dos Santos é ficção, embora ele afirme que a informação científica apresentada no romance é verídica e a minha história é real, embora desconheça se a informação científica que fui recebendo ao longo destes dois meses é verdadeira.

Acresce que Thomas Quinn conseguiu descobrir um sinal de vida extraterrestre e eu ando a tentar perceber se na Terra, nomeadamente onde vivo, vamos ter hipótese de voltar a sentir a emoção de estar no ponto G de Portugal, ou seja, “Onde a terra acaba e o mar começa” sem máscara, sem distanciamento social, sem vigilância, vulgo tudo ao molho e fé em Deus.

Gostava de olhar para o precipício do Cabo da Roca e pensar, ainda que queda vá ser grande, recuperaremos antes de bater lá em baixo.

Afinal a Europa acaba ali, mas nós, os portugueses, não deixaremos que ela se esvaia, só por isto, para o Mar.

 

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