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Generalidades

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28
Set19

No que deu a inovação


Vagueando

Nos anos 70 e 80, aos Domingos, os homens não saiam à rua sem os seus pequenos rádios na mão, encostados ao ouvido ou, de forma mais delicada e respeitosa, para não poluir o ambiente social, com um pequeno auricular no ouvido, para acompanhar os relatos dos jogos de futebol. Que bom seria que nos transportes públicos houvesse o devido respeito para com os utentes e os utilizadores dos telemóveis não ouvissem os vídeos e chamadas em alta voz e desligassem o barulho do teclado, quando estão a jogar, mas isso é outra história.

Estes pequenos rádios, a que muitos chamavam transístores porque se tratava dos primeiros rádios portáteis, de preço acessível, equipados com transístores em vez dos rádios de válvulas que só se podiam usar em casa, eram muito pequenos, por isso, facilmente transportáveis. Não tinham sequer uma antena exterior (tipo stick das selfies, tenho que recorrer a linguagem moderna para explicar as coisas do passado), apenas uma de ferrite no interior e dispunham apenas de onda média (AM). Eram fiéis companheiros dos apaixonados do futebol, cabiam no bolso da camisa, o que era um avanço tecnológico fabuloso.

Os relatos eram de tal forma intensos e apaixonantes, que se vibrava com o rádio/transístor na mão. Ficava à imaginação de cada um as imagens das jogadas relatadas com arte e a emoção. Vivia-se muito futebol pelo som dos rádios, o jogo era imaginado pelo ouvinte, através dos olhos, voz e emoções dos relatadores. Aquelas vozes, com excelente dicção, eram mais familiares que as suas caras as quais, por sua vez,  eram mais conhecidas pelos jornais do que pela televisão. Artur Agostinho, Ribeiro Cristóvão, Alves do Santos, são os que me lembro melhor e que mais tarde criaram, na Rádio Renascença, um programa sobre futebol a Bola Branca.

Os jogos, da Primeira, Segunda e Terceira Divisão, eram todos à mesma hora, nas tardes de Domingo e, como não era possível ouvir todos os relatos em simultâneo, as emissoras transmitiam jogos diferentes (excelente serviço público) e mantinham equipas de reportagem no restantes jogos, as quais interrompiam, estridentemente, o jogo que estava a ser relatado, quando ocorria um golo no seu campo.

Estes relatores, transmitiam o jogo, comentavam a táctica, faziam entrevistas, com meios técnicos muito mais reduzidos dos que existem hoje e punham naquele trabalho muita emoção e muito profissionalismo. Tudo em directo, sem rede e não a era rede de wi-fi.

Quando os jogos terminavam, ficava-se a saber, sem grandes delongas e publicidade, todos os resultados, a classificação dos campeonatos, quem jogava com quem na próxima jornada, a chave do Totobola e, só à noite, depois do telejornal, se via os golos de alguns dos jogos.

As discussões posteriores sobre as tácticas era com os treinadores de bancada, nos cafés e no outro dia entre colegas de trabalho. Quanto a televisão ( a RTP, não as SPORT TV’s) começou a transmitir os jogos em directo, os homens deixaram de sair para as feiras com o rádio na mão e passaram a ir para as cervejarias e cafés beber umas bejecas e ver os jogos, até porque nem todos os lares tinham televisão - que era a preto e branco. A emoção passou para os cafés e cervejarias que aproveitavam o negócio, pelo que para além das caricas das cervejas, havia sempre pelo chão destes estabelecimentos, cascas de tremoços e amendoins (alcagoitas para alguns) e, nalguns locais, pretensamente melhor frequentados, umas cascas de camarão pequeno. A cerveja era bebida em copos e não pelas garrafas e muito menos pelas latas. Nestes locais, por vezes ocorriam uns sopapos e umas zaragatas, por causa da clubite, mas raramente era necessário chamar a polícia.

Não se debatia até à exaustão o árbitro, o penalti, a falta, a falta de jeito do avançado ou do defesa, o frango ou peru do guarda redes, o treinador, não se via o autocarro a sair ou a chegar ao estádio, não se via a policia de choque a acompanhar claques e, não havia redes sociais para descarregar a ira dos adeptos durante toda a semana e muito menos comentadores avençados a defender o indefensável para o seu clube. Quanto muito lá havia um sócio, mais exaltado, que rasgava o cartão de sócio.

A partir do momento em que o futebol se tornou um negócio altamente lucrativo, deixou de ser desporto para ser um mercado, evidentemente financeiro. Os jogos passaram a ser a horas diferentes, em dias diferentes, para que os canais televisivos “pagos” possam fazer dinheiro com o espectador. Passou-se a discutir durante vários horas e dias, com recurso às mais altas tenologias, que superam largamente o que o olho humano consegue discernir, o lance, o erro, o comentário do presidente, do treinador, do adepto, do jornalista, que começaram a puxar a clubite para o ódio ao adversário.

E foi esta inovação que matou ou está a matar o futebol, a televisão, na ânsia de captar telespectadores, mas não podendo transmitir os jogos - o monopólio adquiriu os direitos para os transmitir - não os transmitem, relatam-nos como se fosse uma rádio, mas de péssima qualidade. Não há emoção, apenas a tentativa de criação no ouvinte (sim , ouvinte, não telespectador) a necessidade de aderir/pagar para ver. À moderna pay-per-view.

Para o efeito, dividem o ecrã em 4 ou mais ecrãs. Um para mostrar o pouco publico que está no estádio, outro para mostrar os comentadores, (alguns parecem verdadeiras múmias), outro para mostrar o banco das equipas e outro para repetir exaustivamente algumas jogadas - mas com atraso!

Para além da divisão do ecrã, somos ainda brindados com a voz de uns senhores que não vemos, estão para ali a encher chouriços com conversa fiada sem qualquer interesse e, pior, muito pior, sem qualquer emoção. E para ajudar à confusão, passam ainda umas notícias em rodapé, com informação dispersa.

Ora bolas, a televisão e o futebol são os grandes pilares de um negócio tipo a galinha dos ovos de ouro, em que o galinheiro é gerido por gente abaixo de qualquer suspeita.

Espero que não matem a galinha.

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