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Generalidades

Generalidades

16
Jun21

O drama de uma folha em branco


Vagueando

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Aquela folha havia sido cuidadosamente retirada de uma resma de quinhentas outras irmãs, que se encontravam acondicionadas num pacote protetor e depositada em cima de uma escrevaninha ao lado de uma caneta.

Estranhou, estranhou mesmo muito, até porque à sua frente tinha uma pessoa que segurava a caneta, não falava, quase não se mexia, mas parecia estar em grande esforço e sofrimento.

Enquanto esteve acondicionada naquela resma, bem embrulhada, protegida da humidade e da luz, foi ouvindo as conversas entre as suas irmãs e, dessas conversas nunca ouvira nada que se assemelhasse ao que lhe estava a acontecer.

As conversas decorreram ao longo do tempo e foram muitas. Desde a saída da fábrica, passando por vários transportes, até ser arrumada num armário, por baixo de uma impressora, onde o barulho era o pão nosso de cada dia, foi percebendo o destino que lhe estava destinado.

Assim, enquanto estupefacta observava o sujeito, foi recordando o que ouviu ao logo dos tempos, para ver se percebia porque razão estava ali. Tinha sido fabricada de acordo com uma fórmula Premiu, reciclada e com novas fibras com o objetivo de melhorar os resultados nas impressões a laser e a jacto de tinta. Tinha 80 g.m¯², High Performance, Super White.

Ainda por cima, tinha aprendido, também em português, umas coisas sobre as suas qualidades, tais como; ser multifuncional, ser de excelente qualidade de impressão e de oferecer maior proteção para a impressora.

Tinha sido distinguida pelos consumidores como a mais eficiente em toda a Europa.

Ouvira também as suas irmãs contar histórias de outras folhas, nomeadamente sobre quando eram chamadas a cumprir o seu papel. Era sempre de urgência, os utilizadores rasgavam furiosamente os pacotes, onde estavam acondicionadas, batiam-nas em cima de mesas para ficar bem alinhadas - como se não estivessem já – folheavam a resma rapidamente para a descomprimir e despejavam-nas dentro de uma gaveta, normalmente quente, de uma impressora.

Era nesta altura que mostravam o seu valor, correndo dentro daquela máquina infernal que lhes despeja tinta preta ou de várias cores, numa das faces ou, pior, nas duas, em voltas e mais voltas dentro daquela caranguejola sofisticadíssima, mas horrenda e barulhenta.

Aprenderam a manter sigilo sobre o teor dos assuntos que lhe depositam em cima, sem refilar ou protestar, já que foram ensinadas a não ter opinião nem direito de veto sobre a temática que lhe é impressa.

Não obstante, reza a história sobre algumas destas folhas, que ao perceberem o género de coisas com que vão ser impressas, se revoltam e amotinam, encravando a máquina de propósito. A impressora barafusta e dá mensagem de paper jammed o que provoca a ira do utilizador que se vê obrigado a abri-la, sujar bem as mãos, retirar as folhas revoltosas e começar tudo de novo.

Algumas folhas eram tão malvadas que largavam pequenos pedacinhos da sua fina espessura, nos locais mais apertados daquele amontoado de rolos que imobilizavam a máquina por vários dias, até que um técnico credenciado conseguisse remover aqueles destroços revoltosos de dentro da máquina.

O que faria eu ali sozinha, fora da resma e fora de uma impressora, como quem diz fora do baralho, com uma caneta em cima e um indivíduo a olhar para mim, como se eu fosse a culpada do seu sofrimento?

Fiquei ali mais a caneta, durante toda a noite, sem saber mais o que pensar e também não tinha mais nada para recordar. Ouvi bichanar, era a caneta. Pensava que as canetas só conseguiam comunicar através de terceiros, ou seja, quando alguém lhes pegava e as fazia escrever. Afinal, enganei-me, aquela caneta pensava, tal como eu, no que estava ali a fazer, uma vez que há anos que se encontrava na gaveta. A tinta, de cor azul, que enchia o cartucho de tinta permanente, havia secado na voragem do tempo em que esteve fechada. Dava dó olhar para aquele aparo desidratado e sujo com a última gota de tinta que havia transportado até uma qualquer folha.

E assim passámos a noite a pensar nas nossas vidas.

Acordámos com os primeiros raios solares a entrar pela janela, que aos poucos começaram a queimar a minha pele, super branca, o que me incomodava bastante.

Apareceu de novo o homem, sentou-se e olhou de novo para mim. Tinha o mesmo ar de sofrimento condimentado com o que parecia ter sido uma noite mal dormida ou uma ressaca, quem sabe. Percebi, do seu murmúrio, que queria escrever mas não tinha inspiração, comentando, para si mesmo que era aterrador olhar para uma folha em branco e não saber o que escrever.

Pegou-me gentilmente, depositou-me numa gaveta vazia, espaçosa e limpa, voltou a colocar a caneta em cima e fechou a gaveta. Agora em voz alta, que deixava transparecer alguma raiva, talvez para que eu ouvisse distintamente, disse que quando a inspiração voltasse pegaria de novo em mim e já não me deixaria nem virgem, nem totalmente branca.

Percebi que o meu destino estava traçado, não iria acabar numa impressora mas sim iria ser parte integrante de uma história. Isto se entretanto a caneta colaborar.

A raiva daquele homem, mas também o sofrimento demonstrado e a forma como me tratou, fez-me ter confiança de que um dia, algo de bom e de importante será depositado na minha face, o que me deixou muito tranquila, porque era minha intenção encravar uma impressora, caso me fosse impressa com uma qualquer baboseira.

Quem sabe acabarei emoldurada.

Até lá, esta história é minha, com a participação especial de uma caneta sem tinta e de um pseudo-autor que, apenas e só lamentou, que eu, folha super branca, o intimidei e lhe retirei, para já, a imaginação.

Já lá dizia o meu avô, folha de papel pardo; “Quem não sabe dançar diz que a sala está torta…”

Sendo eu uma simples folha de papel, que papel me coube?

Obviamente, o papel principal.

16
Jun21

O peão e o veículo rápido


Vagueando

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Gosto de velharias, nomeadamente livros. Há uns dias, descobri um pequeno folheto apresentado pela Companhia de Seguros Tranquilidade, companhia fundada em 1871.

O folheto tinha como objetivo alertar para os perigos das ruas e das estradas, foi lançado em 1941, o presidente do Conselho de Administração era o Dr José Ribeiro Santo Silva e a companhia apresentava os seguintes rácios financeiros: Capital e Reservas Esc. 26.000.000$00 Receita total em 1941 Esc.41.000.000$00 Sinistros pagos em 1941 Esc. 11.600.000$00.

A informação vertida na contracapa terminava com esta nota “Se os pagamentos tivessem sido igualmente divididos por todos dos dias do ano, teríamos pago diariamente 32.000$00 escudos.”

Contudo, para além destas curiosidades, gostei particularmente de um pequeno trecho onde se aborda a questão dos atropelamentos de peões, cuja descrição é tão simples e objectiva que não resisto a transcrevê-lo na integra, com ortografia usada na altura.

Podemos dividir os atropelamentos em duas espécies, a saber: os ocorridos na faixa de rolagem, isto é no espaço da rua reservada aos veículos; e aquêles que acontecem sôbre os passeio das ruas ou bermas das estradas por onde só devem transitar peões.

Ao atravessar uma rua há sempre que ter presente que nos é mais fácil ver conscientemente o veículo, que se aproxima, do que sermos vistos pelo seu condutor. Isto explica-se, porque o campo de visão do condutor se acha limitado geralmente pelo para-brisa; porque os peões são quási sempre mais numerosos do que os veículos e porque êstes últimos, maiores do que aqueles, prendem mais a atenção.

Além disso, enquanto peão tem de livrar-se de um veículo de cada vez e cujo sentido de movimento quási sempre também conhece – o condutor, por seu lado, tem de haver-se com vários peões ao mesmo tempo que podem mudar a direcção em que se movem com muito mais facilidade do que qualquer veículo.

Dêste estado de coisas provém que um condutor,p ara se desviar de um transeunte completamente distraído, pode ir, por exemplo, colher outro mais prudente que já tenha tido o cuidado de se conservar na borda do passeio.

O pavimento por onde transitam os veículos deve ser considerado por todos os peões como «terra de ninguém». Pôr os pés nas faixas de rolagem das ruas e das estradas com muito trânsito, só para as atravessar mais ràpidamente possível, depois de haver a certeza de que se não aproxima qualquer veículo.

Ora se devemos atravessar as ruas e as estradas com cautela, o mesmo se observará quando se trate da via férrea, tendo, porém, aqui sempre presente que o vento que sopra em sentido oposto ao de um comboio que se aproxima o torna silencioso – e que além disso êste não para com a facilidade de um carro eléctrico ou camião.

Nota para os mais distraídos; Entenda-se carro eléctrico como os elétricos da Carris, os amarelos, para não se confundir com os atuais carros elétricos.

13
Jun21

Sintra, Sol e nevoeiro


Vagueando

O Sol, a que chamam astro-rei, tem o poder de nos aquecer e iluminar. Contudo, não tem a capacidade de escolher o que aquecer e iluminar.

Cabe à Terra, com o seu movimento de rotação e trasladação, decidir onde e quando o Sol ilumina e aquece. Para além disso, o Sol ainda está limitado na sua acção, pelas nuvens, pelas montanhas, pelo nevoeiro, pelas florestas.

Mas o Sol, não fosse ele o Astro Rei, tem gostos e simpatias e, notícia em primeira mão, confirmada pelo fact-check, o Sol gosta muito de Sintra.

Sintra não é fácil de se deixar ver, quer a turistas, quer ao próprio Sol, gosta de se esconder por baixo do nevoeiro. Até para mim, que aqui resido há 63 anos, quando está nevoeiro, tenho muita dificuldade em ver o portão da minha casa, quanto mais ver a Serra, os monumentos e os jardins.

Se o astro rei fosse dotado de movimento próprio, estacionava em Sintra. E quando resolvesse dar uma volta, passava rapidamente pelo país do sol nascente, apenas para cumprir o protocolo e vinha deitar-se junto ao mar, logo após se despedir do fim geográfico da Europa (convém referir para não se confundir com o fim político e social da mesma) e ficaria ali, eternamente, a contemplar Sintra, a sua serra, os seus palácios e o castelo.

O Sol deitado no mar, sem nevoeiro, deslumbra-se com tanta beleza e cor. A sua luz entra pelas janelas dos palácios criando sombras fantasmagóricas que não vê mas imagina.

Ao fim de tantos séculos a passar por aqui, ainda não conseguiu perceber se a beleza, a cor, a nitidez, deriva da sua própria luz ou se da reflexão da mesma na serra e nos seus monumentos.

A Terra não lhe concede tempo extra, continua no seu movimento imperturbável. O Sol, por vezes, em jeito de agradecimento, pela ausência de nevoeiro, deixa ver, por breves instantes o raio verde, mesmo onde o mar e o céu se juntam mas não se confundem.

Gostaria de dizer ao Sol que, mesmo com a sua luz filtrada pelo nevoeiro ou mesmo de noite, Sintra continua bela e tenho pena que o Sol nunca consiga ver a sua beleza nestas alturas.

Quem sabe, um dia, o Sol, possa reinventar-se e passar por cá uma noite destas, sem dar nas vistas - afinal há países onde o Sol passa por lá à meia-noite - para ver que mesmo sem a sua luz e o seu calor, Sintra continua bela e propícia ao amor.

Para que não me acusem de mentir, coisa que já fiz aqui https://classeaparte.blogs.sapo.pt/mentira-16889 deixo, no link abaixo, algumas imagens de Sintra, da sua serra e dos seus palácios onde fica evidente que o Sol e o nevoeiro têm um especial apego a esta maravilhosa e misteriosa vila.

https://photos.app.goo.gl/gmEXqwchQejoWoEy5

12
Jun21

A morte fascina-me


Vagueando

Costuma dizer-se que a única coisa cem por cento certa na vida de um ser humano é a de que um dia morre. Sendo verdade também é certo que antes de isso acontecer pagaremos, direta ou indiretamente, impostos.

Não venho desmentir nada disto, antes pelo contrário, é verdade, é uma verdade de La Palisse, confirmo por experiência própria, para já, a parte que se refere ao pagamento de impostos.

O que me fascina na morte, razão pela qual resolvi vaguear pelo tema é saber como sabe o morto que morreu.

Quem está habilitado a prestar-lhe essa informação? Que documento lhe é entregue como prova de morte (que eu saiba há por aí muita gente a ter que fazer prova de vida)? Como pode o morto aceder à vida eterna se não tem nenhuma prova que ateste que está morto?

Com as falcatruas que se fazem por aí, todos os dias, quem garante que não anda por aí malta a aceder, de forma ilegal, à vida eterna?

E depois?

O que faz o morto com o certificado? Como é que morto encara todas aquelas cerimónias fúnebres? Como vai organizar-se a partir daqui? Terá algum apoio para mudar de residência?

Recorremos aos especialistas para saber mais sobre determinados temas. Mas onde estão os especialistas nesta matéria? Não conheço nenhum "necrolojólogo", nem nenhum espeleólogo mental que tenha explorado e explicado esta falha grave.

O Mundo encontrou uma forma de datar os acontecimentos, diferenciando os anos em AC e DC. Será que o morto também poderá datar os acontecimentos em AM –Antes de Morto e em DM – Depois de Morto?

Será que o morto terá direito à sua nova existência, chamemos-lhe assim, a um CCM – Cartão de Cidadão Morto? E que data constará neste cartão, a sua data de nascimento e/ou a data da sua morte, ou só esta última para dar início à contagem dos anos DM? Também se lhe averba a sua condição de morto, tal como o estado civil, no CC que estamos habituados e habilitados a usar?

O autocarro funerário anda todos os dias por ruas e estradas, sem paragens certas e sem horário definido, sem cronograma dos seus percursos. Embora o ponto de partida seja diversificado, o seu destino é sempre o mesmo e onde saem todos os seus passageiros. Não tem revisor, nem fiscal, não aceita passe social, não aceita bilhetes pré-comprados nem de ida e volta, a entrada e a saída é feita sempre pela porta de trás, só leva um passageiro de cada vez, que vai deitado e não sabe para onde vai, mas também não pode dizer que sabe que não quer ir por ali.

Quando o povo diz que temos que mudar de vida estará, porventura, a referir-se a mudá-la de Antes de Morto para Depois de Morto?

Será que única certeza que um morto tem é que nunca vai saber que morreu?

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