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Generalidades

Generalidades

14
Fev20

Violência pré-doméstica

Vagueando

Hoje, dia dos namorados, a notícia surpreendente é que 67% de jovens aceitam como natural pelo menos um comportamento de violência no namoro, ou seja, violência pré-doméstica.

Isto deixa-me a pensar que a geração mais instruída de sempre, que se revolta por maus tratos aos animais, que se manifesta ruidosamente pelo ambiente, que defende a igualdade de género, que é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, também defende que umas valentes lambadas na parceira ou no parceiro, à boa moda antiga, fazem parte da normalidade e da boa e sã convivência entre seres humanos.

Sempre ouvi dizer que ninguém carrega uma carimbadela na testa que o rotule como agressor ou outra coisa qualquer condenável pela sociedade, o que é verdade. Mas há por aí muita gente com comportamentos perigosos à vista de todos, por exemplo aquele que liga os 4 piscas do automóvel a dizer que deixou o seu carro mal estacionado, a constituir um perigo para a circulação e vai calmamente tomar um café.

E ninguém faz nada nem se revolta!

Pois, é o país que temos ou o povo que temos!

09
Fev20

Balada da Neve

Vagueando

Esta balada de Augusto Gil, sempre buliu comigo, desde pequeno. Gosto de a ler, gosto de a ouvir. Sabe-me bem, faz-me sentir bem, aconchega.

Quando vagueio por aí recordo sempre desta balada. Vai daí, lembrei-me de ir buscar ao sótão buscar algumas das imagens que fui coleccionando ao longo dos anos e que me fazem ouvir, que batem leve, levemente, com se chamassem de novo por mim.

Não sei se vou deturpar, se vou estragar ou homenagear, mas deu-me muito prazer, relembrar estas imagens e relembrar a balada (ver link abaixo)

https://photos.app.goo.gl/RT9DdhcnkF51ZL3Y7

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

 

04
Fev20

Divagações, histórias e estórias sobre as queijadas da Sapa

Vagueando

É mais fácil provar hoje uma queijada, do que provar quando é que ela apareceu, quem é que a provou em primeiro lugar e que mãos é que provaram ser capazes de ter a arte e a mestria de as confecionar pela primeira vez.

Quando as queijadas viram a luz do dia, por volta do Século XIII, seria mais difícil prová-las do que perder tempo a provar a sua existência e provar a sua qualidade. Não existia nem certificações, nem selo de qualidade que as distinguisse.

Se isto é o melhor que a inovação e a excelência, que tanto nos apregoam consegue provar, prefiro ficar a sonhar com o velho pregão nas feiras e nos campos da bola (não confundir com estádios) “Olha a bela queijada de Cintra”.

Pode ser que a Inteligência Artificial consiga, finalmente e em simultâneo, fazer do acto de provar uma queijada, mais do que nos culpar pelo pecado da gula, e de estarmos a dar cabo da nossa saúde (1) , um facto historicamente comprovado. Como? Ao desembrulhar doucement (não abrir, nem rasgar) o pacote de queijadas, receber aquele aroma da canela, sentir o desejo irresistível de trincar um qualquer daqueles 6 bolinhos redondos, protegidos pela fina casca, olhar para o papel que as envolvia e perceber que o papel (quiçá reciclado)que lhe coube, foi o de nos fazer ver no espaço por cima de nós, com todos os holofotes apontados, a história da queijada em 3D com som Dolby Digital.

Os holofotes existentes na casa das Verdadeiras Queijadas da Sapa (ver foto no link abaixo) 

A História tem os seus métodos para datar e comprovar a ocorrência de acontecimentos passados, ainda que alguns acontecimentos passados custem muito mais a engolir do que uma bela queijada.

Tanto quanto se sabe as queijadas serviram de moeda de troca entre 1227 e 1586. A título de exemplo o Casal do Rebolo em Almargem do Bispo foi arrendado ao Convento da Trindade em 1481 por cem alqueires de trigo (2), noventa de cevada, um porco de dois anos e uma dúzia de queijadas. Assim parece que as queijadas antes de serem produzidas para venda, constituíam reserva de valor, servindo como de moeda de troca em negócios.

Se naquela altura o Banco Lisboa, o primeiro a operar em Portugal, inaugurado em 1821, já existisse, aceitar-se-iam depósitos em queijadas, dentro prazo de validade, bem certo. Seria certamente denominado como o Banco Doçaria Boa (convém rimar com Lisboa para não trair a História) e teria, se calhar, uma vida mais longa que este banco, uma vez que em novembro de 1846 se fundiu com a Companhia de Confiança Nacional, sociedade de investimentos especializada em dívida pública e que mais tarde deu origem ao Banco de Portugal. Uma curiosidade de cariz ambiental. Há 175 anos atrás, o papel existente em armazém no Banco de Lisboa, foi integralmente aproveitado pelo Banco de Portugal para embrulhar as queijadas. Não! Foi aproveitado para imprimir, até 1875, notas mas com a marca de água do extinto Banco de Lisboa. Quem sabe se a ideia do Banco Doçaria Boa, cujos activos fossem suportados em queijadas, se hoje não teríamos bancos doces, mais valiosos, mais seguros e mais éticos que os de hoje.

As queijadas terão nascido – parece que ninguém sabe, sou eu a fazer de adivinho - ali para as bandas do Algueirão, eram fabricadas de forma artesanal, por vários particulares e vendidas em feiras e mercados, um pouco por todo o lado de Lisboa a Sintra.

Maria Sapa, estabelece-se em Ranholas em 1756, momento que terá sido o início da produção industrial de queijadas, com uma produção diária de vinte dúzias, as quais vendia aos fidalgos que se dirigiam a Sintra, no estabelecimento que se chamava Ramalhãozinho.

Ranholas era e de alguma forma ainda é, a porta de entrada rodoviária em Sintra, pelo que tinha tudo para ser um bom ponto de venda. Não existia proibição de estacionamento a cavalos, nem ocorriam constrangimentos de trânsito cavalar, devido ao estreitamento da via, aos limites de velocidade baixos, nem existiam passadeiras de peões, pelo que estavam reunidas as condições para que a Sapa fosse uma queijadaria de excelência, quer do ponto de vista do produto, a queijada como core business, e do ponto de vista comercial, porque era casa frequentada pelos mais distintos fidalgos. Ranholas foi também o ponto de passagem para o primeiro comboio que chegou a Sintra, o Larmanjat, inaugurado em 02 de Julho de 1873.

Inauguração do Larmanjat em Sintra (ver foto no link abaixo)

Horário do Larmanjat em 1873 (ver foto no link abaixo)

O comboio vinha do Rego até Cintra com paragem na Porcalhota, onde os aguadeiros e as vendedeiras faziam o seu negócio durante esta paragem. Não era bem um comboio porque só dispunha de um carril central, que servia para o direcionar, e os rodados assentavam em cima de travessas de madeira. Maria Sapa, já não viu este comboio, mas se tivesse visto não sei qual seria a sua reação ao ver os seus habituais fidalgos todos aperaltados , desembarcarem daquela geringonça, em vez de desmontarem dos seus cavalos, para comprarem queijadas no Ramalhãozinho.

Ainda que a produção de queijadas em Ranholas continuasse, o Larmanjat durou apenas até 1877, devido aos muitos descarrilamentos. O caminho de ferro não desistiu de Sintra, pelo que em 1887 o comboio a vapor chegou à Estefânia. Ranholas deixou de ser a porta privilegiada para entrar em Sintra, devido à chegada do comboio.

As queijadas de Maria Sapa, mudam-se para a Volta do Duche, onde ainda estão hoje. Sem sombra de dúvida, de todas as marcas de queijadas conhecidas, a Sapa é a mais antiga e, sendo a mais antiga, começou logo a ser inovadora. Os tão na moda kiosques, food trucks, roulottes, que animam hoje o chamado mercado de street food, que se apelidam de vintage que vendem comida gourmet, são-nos apresentados como uma grande inovação, deviam de ter vergonha porque não inventaram nada. Podem ser vintage, podem ser gourmet ou lá o que isso é, mas não são inovação. Inovação foi no tempo de Francisco Antunes das Neves, descendente dos Sapa, avô de conhecido Francisco Barreto das Neves, que tirou a licença nº 763, para poder circular com um veículo de duas rodas, de eixo fixo, puxado por uma cavalgadura, ou seja uma carroça, com a qual percorria vários locais de Sintra a vender as queijadas que fabricava.

Depois desta lição de história vou centrar-me na descrição épica da viajem da Casa Sapa, de 2,2km, entre Ranholas e a Volta do Duche.

Comecemos por Ranholas. Ao contrário do que muita gente pensa o nome Ranholas nada tem a ver com ranho, quanto muito tem a ver com ranha. Não, não comecem já a pensar em igualdade de género, se existe ranho tem que existir ranha. Ranholas será o diminutivo de ranha e ranha é um termo minhoto que designa declive no leito de um rio rápido. Quem passa em Ranholas em dias de muita chuva, constata facilmente que a estrada que atravessa a localidade se torna num verdadeiro rio com um declive significativo. Dai parecer fazer sentido, que o nome da localidade derive da palavra ranha.

Sair de Ranholas para a Volta do Duche, não há volta a dar é a subir. Não faço a mínima ideia por onde passaram os tarecos das queijadas Maria Sapa até chegar à Volta do Duche, mas especulemos um pouco.

Presumo que terá seguido logo pelo caminho em frente à casa, rua do Alto da Bonita, (em cujo alto, haveria alguma bonita ou só a vista é que era bonita), depois Chão de Meninos, talvez porque o chão dos meninos fosse mais macio e por isso mais adequado ao transporte dos utensílios de culinária, sem os partir, depois seguido pela Rua Albino José Batista, entroncar na rua Rodrigo Delfim Pereira, apanhar o caminho a descer da Alba Longa (3), fazer uns parcos metros na Rua Conde Seisal, virar à direita para a rua das Murtas, beneficiado do aroma a laranja que esta planta liberta e no fim, virar à esquerda na Rua João de Deus e, com a graça de Deus, desembocar junto à estação de caminho-de-ferro, recentemente inaugurado.

Daí até ao local onde hoje se encontra terá sido um pulinho.

Chegada à Volta do Duche, depois de tanto esforço, nada mais retemperador que um banho nos duches medicinais da Volta do Duche instalados em 1848 pelo médico Bernardino Silveira e Castro, altura a partir da qual a estrada entre a Vila Velha e a Estefânia, passou a chamar-se Volta do Duche. Estes banhos foram mais tarde propriedade de António Pereira que teve que os encerrar por falta de procura, ficando conhecido por Pouca Sorte. Melhor sorte teve as queijadas da Sapa, ainda hoje são um testemunho vivo que sobreviveu à voragem dos tempos modernos, constituindo-se assim como um símbolo histórico de Sintra e simultaneamente, uma marca respeitada e afamada.

Falemos agora do termo SAPA. Sapa designa uma pessoa de baixa estatura mas também designa uma pá usada pelos soldados para cavar/abrir trincheiras. Os militares encarregues de tal missão executavam o trabalho de sapador com esta pá, que tem a particularidade de possuir no topo, duas abas laterais que serviam para se poder calcar e assim cravá-la mais facilmente no chão facilitando a abertura da trincheira.

Antiga Pá de Sapa militar (ver foto no link abaixo)

Maria Sapa e os seus descendentes, foram verdadeiros sapadores. Não por terem aberto uma trincheira, mas sim por terem aberto uma ligação histórica entre Ranholas e a Volta do Duche usada ainda hoje, para chegar rapidamente à Volta do Duche e à Verdadeira Fábrica de Queijadas da Sapa.

Na próxima vez que visitar a Sapa, leve o pacote de queijadas até uma mesa, aconchegue-se na sala, olhe para o palácio, respire fundo, desembrulhe o pacote de queijadas, fixe as luzes por cima de si e voilá; Está presente a ver o passado, está em Ranholas. Esqueça que o ticket de estacionamento só dá para meia hora, já que está no passado desfrute-o. Viajou no tempo, aprendeu como nasceram as queijadas, fez uma viagem no Larmanjat, passou no Ramalhãozinho, veio de Ranholas à Volta do Duche e, de repente, regressa a actualidade e, ainda há uma queijada na mesa. Meio atordoado come-a de imediato e constata que lhe soube melhor que todas as outras.

Não viu nada? Pois, não será um verdadeiro apreciador das verdadeiras queijadas da Sapa ou terá que consultar um especialista, um queijadólogo, mas acredite que o problema é seu. Pelo menos é o que me dizem todos os que já viram o raio verde (4) quando o sol se põe no mar em condições muito especiais . Eu nunca vi!

 

Link para as fotos https://photos.app.goo.gl/BtB3UjFpRyX692gD6

Este texto mistura ficção com realidade, história com estórias, coisas sérias com coisas parvas. Para bom entendedor, é fácil perceber que a parte parva pertence ao autor e as partes sérias a diversas consultas, quer na Internet, cintraeoseupovocintraseupovo.blogspot, quer às magníficas obras de José Alfredo da Costa Azevedo, antigo presidente da CM Sintra.

(1) Sobre saúde não resisto a citar José Alfredo da Costa Azevedo que no seu livro “Apontamentos Vários” termina o seu capítulo “Queijadas” desta forma; Termino fazendo votos sinceros para que o belo doce sintrense continue a ser fabricado de forma a que não desmereça a fama que criou e faça muito bom proveito àqueles que o podem comer. Eu cá ficarei a rogar pragas à maldita diabetes.

(2) Para os mais esquecidos ou eventualmente mais novos os principais padrões do alqueire usados em diferentes regiões de Portugal no século XIX eram os seguintes:

  • 13,1 litros no litoral entre Aveiroe Lisboa
  • 13,9 litros, um pouco por todo o país
  • 14,9 e 15,7 litros, sobretudo no interior e no sul
  • 17,0, 17,5 e 19,3 litros, quase exclusivamente no Entre-Douro-e-Minho

(3)  Alba significa aurora, primeira luz da manhã. Antes da densa vegetação envolver Sintra seria possível beneficiar neste caminho de uma nascer do sol durante bastante tempo, daí a designação de Alba Longa.

(4) O Raio Verde, popularizado pelo romance de Júlio Verne com o mesmo nome. É um fenómeno meteorológico, muito rápido, que pode ocorrer ao pôr-do-sol, sob condições muito particulares de tempo. É mais frequente no mar e só pode ser observado se o horizonte estiver sem qualquer neblina. Não obstante, não basta não haver neblina é necessário que os valores de temperatura e humidade atinjam determinados parâmetros que desconheço

 

30
Jan20

Sintra das Sômbras Vivas...

Vagueando

Sintra das Sômbras Vivas

 

Sintra das sombras húmidas, cativa

Nêsse destino agreste e singular

De quem nasceu para ser altiva

Eternamente namorando o mar

 

Abriste ribeirinhos e cascatas

Nos flancos altos, de perfil incerto,

E assim beijas a água assim já matas

Saudades Loucas pelo mar tão perto…

 

Sintra das sombras vivas – entre hortas,

Entre pomares, dicas e castelos,

Onde um canto coral de vozes mortas

Se abraça de cousas com mais fortes elos…

 

Fantasmas – Sombras vivas – não recolhas

A’ burguesia duma vida inglória...!

-Folhas das tuas árvores são folhas

Dum Livro Verde onde se escreve a História…

 

Mantem o orgulho nobre num destino

Que pelos tempos fora é caminheiro…

-Só tu venceste um poeta peregrino

Que disse, ao mundo, mal do mundo inteiro…!

 

 

Nas tuas quintas de portões fechados,

Conserva a solidão distante e austera…

Deixa cair as ninfas, aos bocados

Nas fontes secas recobertas de hera…

 

Oh Sintra dos wallis, Serra da Lua,

Sê mulher moira que jamias se atreve

A descobrir o seu rosto, e continua

Usando um casto véu de bruma leve…

 

Oh Sintra medieval, que foste ninho

De “ínclita geração de altos infantes”

Sê cavaleiro andante, que sozinho,

Persegue sonhos mais e mais distantes…

 

Sintra da hora da aventura imensa,

Que viste um rei, alvoraçado e lêdo,

Sôbre um monte cimeiro, em névoa densa,

Adivinhar das Índias o segredo…

 

Vê sempre, ao longe, se lá vem singrando

Nau do Progresso – Embarcações festivas. –

Mas não despertes o teu sôno brando,

Sêno de morte cheio de sombras vivas…

 

Publicado em Setembro de 1927, O Domingo Ilustrado"nº 141 do Ano III, por T.L.B. na rubrica Curiosidades

03
Jan20

Porquê?

Vagueando

Há locais que nos tocam mesmo antes de lá estarmos. São apelativos, aconchegantes, reconfortantes sem sabermos porquê, têm essa capacidade de nos fazer sentir bem. Será que esses locais, lugares, sítios, são mesmo importantes ou somos nós que nos sentimos verdadeiramente importantes?

Gosto de observar locais, sítios, lugares, percorro-os com vários olhares, tento ver o que está lá e não se vê, sem que ninguém saiba porquê?

Quando os encontro, gosto de refletir sobre eles, saber o que vem de trás, porque o resto está à vista ainda que muitos não vejam, porquê?

Estando lá, vejo ação, animação, emoção, quiçá degustação, mas não vejo interesse na observação, porquê?

Dou nas vistas levanto-me, agacho-me tiro uma foto e depois outra de ângulos estranhos, olham pra mim como se estivessem a observar um malabarista, mas não vão ver o que eu vi, ainda que insista, e tiro outra foto e depois mais outra, e, outra. Porquê?

Fico a olhar para o resultado do meu olhar, gosto do que vejo, porque antevejo que mais alguém pode gostar, decido partilhar, para quê?

Porque acredito que vendo melhor, se pode apreciar com detalhe, ao pormenor, o que está ao nosso redor, sentir-se mais jovem tipo um júnior, em suma, ser um cidadão explorador, produtor e emissor de imagens, com valor. Deixo seis fotos, aceito sugestões, sobre a identificação dos locais.

quhttps://photos.app.goo.gl/BeK3DbFroK9BQja4A

01
Jan20

Escrever no primeiro dia do ano

Vagueando

Rua.jpg

 

Ainda ontem, mais precisamente o ano passado, estava queixar-me da falta de gana e de inspiração para escrever e aqui estou de novo, no primeiro dia de 2020 a escrever, com tanta gana que o teclado está quase a ceder á fúria e à força dos meus dedos e cheio de inspiração, julgo eu.

Mas quem sou eu para avaliar os meus dotes inspirativos? Bom não sou ninguém, estou apenas a fazer um exercício de auto avaliação que, como se sabe, está muito em voga pelo mundo. Para se poupar nos custos, agora são empresas que se auto avaliam e remetem os resultados aos respectivos reguladores. Neste sentido, não estou a inovar absolutamente nada, apenas e só, a seguir as tendências actuais e as melhores práticas.

Então, perguntar-me-ão o que há de novo para partilhar? Nada de interessante.

Nunca fui dado a excessos, sendo que muitas vezes nas épocas festivas ingiro normalmente menos calorias e bebo menos que no dia a dia. Ver muita comida deixa-me sem fome. Daí que não estou de ressaca a seguir às épocas festivas.

Assim saio bem cedo de casa e tenho todo o espaço, aprecio a falta de trânsito, a falta de pessoas, o silêncio e a tranquilidade que as ruas oferecem. É fascinante, em espacial num dia bom como é caso de hoje,- ver a luz a entrar pelas ruas, completamente despovoadas de gente e de carros.

Quando começou a moda de se criar um dia sem carros, nunca funcionou. Os verdadeiros dias sem carros são dias como o de hoje, de manhã, bem cedo. Logo a partir do meio do dia tudo volta à confusão, gente na fila para almoçar, nunca percebi este tipo de motivação, começar o ano, com stress e confusão, comer mal e caro, estar de pé á espera por uma mesa, apanhar trânsito com fartura junto aos restaurantes, assistir às primeiras asneiras na condução, que não são mais que a repetição dos constantes atropelos, exibidos ao longo do ano passado ao Código da Estrada, contribuindo para as negras estatísticas de sinistralidade rodoviária.

E pronto, Bom Ano.

31
Dez19

Escrever no último dia do ano

Vagueando

Ainda que o meu lema seja escrever quando me dá na gana e a inspiração apareça, desta vez e espero que apenas desta vez, falhei.

Nem estou com gana de escrever, muito menos a inspiração me visitou ou sequer me deu um pequeno toque na minha consciência para fazer este penoso exercício, escrever no último dia do ano, para quê?

Ainda assim experimentei, pelo que estou aqui a teclar e a pensar, a tentar divagar mas o tema é que não se chega à frente, nem vejo luz ao fundo do túnel. Podia fazer um balanço do ano que passou, mas não consigo dar o balanço para escrever a primeira frase.

Podia ser sobre os desafios de 2020, mas também não estou para aí virado, nem sei manejar as cartas de Tarot, muito menos ler a sina. Podia ser sobre os festejos da passagem de ano, mas nem assim me entusiasmo.

Pronto, sobrou o marasmo!

Então vou terminar, porque já estou a maçar quando o objectivo seria encantar e também não quero brincar com quem tiver a coragem de neste post clicar.

Pelo menos fica registado que, no último dia do ano esforcei-me, não  consegui nada de jeito, bem certo, mas escrevi, qualquer coisa sem valor (acrescentado), gosto desta coisa do valor acrescentado, fica sempre bem em qualquer frase , empregue sempre que se quer vender gato por lebre que é, afinal, o que acabei de fazer.

Bom Ano de 2020.

23
Dez19

O meu conto de Natal

Vagueando

Nem sei se vos conte! Havia estrelas no céu, estrelado portanto e luar, aluado portanto. A Lua que não tem luz, quis demonstrar às estrelas que, mesmo sem luz, ainda que com a ajuda de Apu Inti, Deus do Sol para os Incas, também brilha, ou seja, faz um brilharete.

Os habitantes inter-galácticos aproveitaram esta combinação luminosa, para em nome da poupança e das alterações meteorológicas do espaço sideral, não usar as artificiais iluminações de Natal.

As estrelas, por unanimidade, uniram-se em figuras natalícias, misturaram os seus gases originando brilhos de várias cores e tons de rara e estonteante beleza, só comparável às cores dos anéis de Saturno.

Não houve concurso púbico inter-estelar para gerar esta empatia e consenso, apenas e só uma participação colectiva, regida pelas melhores práticas que uma sociedade em paz e harmonia pode adoptar. Parece que os parlamentos terrestres de todo o mundo já pediram cópia destas melhores práticas, as quais envergonham a sociedade terrestre, que se obriga a criar códigos de ética e/ou de conduta.

Os corpos celestes esmeraram-se e arrasaram, até os terrestres estavam ao mesmo tempo maravilhados e assustados com aquelas formações estelares, porque inclusive a sua via láctea estava mais brilhante do que nunca e tão geometricamente organizada e colorida que havia quem dissesse que era o fim do Mundo.

Alguns defendiam mesmo que a previsão apocalíptica do fim do mundo, anunciado para 2000, estava completamente errada, porque a combinação certa seria a junção de dois, dois, ou seja, 2020!

O Pai Natal, acossado na Terra com os direitos dos animais, aproveitou o facto de neste planeta andarem todos desorientados com esta grandiosa e inesperada iluminação natalícia, (os serviços secretos mundiais andavam numa roda viva a desconfiar uns dos outros) para se apropriar de um satélite de espionagem (mais rápido e furtivo, as alfandegas não conseguem cobrar impostos sobre as prendas) e usá-lo por controlo remoto, disponibilizado pela app “Natal para Apressados” para fazer a distribuição dos presentes, encomendados (quiçá merecidos) online, of course.

Entretanto as renas estavam tristes porque não se podiam reformar, nem podiam requerer o subsídio de desemprego. É que o Pai Natal não as tinha despedido, apenas as tinha posto em lockout.

No meio disto tudo, o Menino Jesus estava para nascer e como a mãe, Maria, tinha ido a Belém, cidade com muita afluência turística nesta época, deparou-se com o caos nos hospitais e com as estalagens completas. Desesperada informou um dos estalajadeiros que estava grávida e prestes a ter a criança. Foi-lhe oferecido um cantinho no estábulo da estalagem, onde foi colocada, numa manjedoura, palha biológica muito fina e fofinha, para deitar o menino. A esposa do estalajadeiro ofereceu os seus préstimos a Maria e em troca esta comprometeu-se a não informar a ASAE, que andava muito activa na sua missão fiscalizadora, que tinha sido alojada no estábulo, ainda por cima sem direito a Pequeno Almoço.

O estalajadeiro mandou ainda o seu filho levar todos os animais para o estábulo do tio, porque a AdAdBeG-Associação dos Amigos dos Bichos em Geral -, não queriam que estes ficassem traumatizados ao assistirem ao parto de Maria e também porque o burro tinhas as marcas de uma canga, usada para o atrelar à nora e andar à roda até ficar à nora ou tirar água durante a noite (que também era proibido, o burro não podia ser usado para trabalhar) para o serviço da estalagem.

Lá está, a AdAdBeG, é uma associação de defesa dos animais, cujos pareceres e deliberações não são vinculativos, vive da carolice dos seus associados, tem muito mais poder que a ASAE e daí a preocupação.

Por sua vez os Reis Magos tiveram também alguns problemas logísticos para chegar até ao Menino Jesus.

Primeiro, porque alguém os avisou que as suas vestes eram compostas por cores que sugeriam estarem conotadas com pessoas do sexo masculino, dai que à última hora resolveram fazer algumas alterações adoptando cores misóginas, para não ferir susceptibilidades e não transmitir ao Menino Jesus nenhum laivo que o pudesse vir a tornar, no futuro, um machista. Segundo, porque os camelos não possuíam o boletim de vacinação em dia, bem como foi preciso esperar pelo resultado de uma providência cautelar interposta pela AdC - Amigos dos Camelos - que não queriam que estes fossem utilizados para o transporte de prendas e ainda porque se suspeitava que os dromedários não tinham armazenado água suficiente para a jornada e sabia-se que não existia nenhum oásis de serviço pelo caminho (férias natalícias oblige). Tudo se resolveu a contento, com excepção das exigências da AdC, e os Reis Magos lá se fizeram ao caminho. Por último, ainda que os Reis Magos, fossem isso mesmo, magos, palavra que na altura não tinha nenhuma conotação com o significado que lhe atribuímos hoje, mas sim porque a designação significava que se tratava de pessoas reconhecidas pelos seus conhecimentos científicos, em especial na área de astronomia, de nada lhes valeu.

É que a estrela que lhe servia de guia, tinha-se juntado à formação de estrelas que polvilhava o céu na iluminação de Natal inter-galáctica e lá foi a orientação para o galheiro e, por azar, nenhum deles tinha GPS que já existiam na época, mas ainda não eram um sucesso porque os satélites que lhes emitem o sinal ainda não tinham sido enviados para o espaço.

Ao que se sabe, os governadores do espaço andavam numa guerra de tarifas comerciais com os terrestres e as naves carregadas com os satélites aguardavam que o Natal lhe trouxesse a necessária autorização para entrar em órbita.

 

Este foi o meu primeiro post como resposta ao desafio proposto pela Isabel, o meu conto de Natal. Não sei se é um conto, se conta par alguma coisa ou se fazemos a conta depois do Natal. Contudo, a todos o Um Bom Natal.

07
Dez19

O Mula Expresso

Vagueando

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Tem sido amplamente noticiado, com direito a indignação histérica colectiva, o caso das renas que se encontravam no recinto da Capital do Natal em Algés.

Após muitos posts, twiters, instagrams, facebooks as renas lá foram à sua vida, porque os animais, ainda que não saibam, não tendo deveres, estão cheios de direitos.

Não fui, nem tenciono ir à Capital do Natal, não faço a mínima ideia se as renas estavam lá apenas para serem expostas, se podiam ser molestadas pelas crianças ou pior, pelos adultos, se estavam disponíveis para fotos, incluindo selfies, se estavam lá para rebocar algum trenó com o Pai Natal ou, se no fim,  eram transformadas em hamburguers. Para que conste, já comi hambúrguer de rena, num país dito civilizado, a Finlândia e, confesso, detestei.

Sendo eu um defensor de que não se deve infligir maus tratos aos animais, também sou um defensor de que os mesmos podem servir o homem, sem os tais maltratos, bem entendido. A evolução entretanto trouxe os maus tratos. Maus tratos, tanto pode ser bater num animal, não o alimentar ou, pura e simplesmente, esquecer que um animal é isso mesmo, pelo que aboneca-lo, mete-lo dentro de casa e empanturrá-lo de comida, vestir-lhe uma camisolinha, também pode significar maus tratos. Os animais foram sendo domesticados e alguns são bem felizes perto do homem.

É muito fácil abraçar a causa dos animais desde que não se tenha que tratar deles. É muito giro indignar-se que as renas, por exemplo, estão sujas, mas a maioria dos indignados nunca entrou num curral, quanto mais limpá-lo.

Neste sentido, não vejo onde estará o problema de ter, durante meia dúzia de dias, num recinto visitado por crianças, o seu público alvo, umas renas.

Mas mudemos de assunto sem perder o fio à meada.

Imaginemos que a Ubereats resolvia introduzir pelo mundo fora, o transporte de comida em animais, por exemplo renas na Finlândia, cavalos em Inglaterra, burros na Europa mediterrânea, mulas em Lisboa e por aí fora.

Ui, nem pensar, coitadinhos dos bichinhos à chuva, ao sol e ao frio, a carregar com comida. Tenho a certeza que a Ubereats era proscrita em menos de um dia.

Então porque se aceita que ciclistas sirvam de verdadeiras mulas –expresso, com uma mochila às costas, andem a pedalar pelas cidades para entregar comida a gente que diz não ter tempo, mas sucede que a verdade não está para dar um passo até à rua para almoçar e para arejar, mas que ao fim do dia vai mostrar o físico ao ginásio.

Constato que grande parte das pessoas que usa os elevadores nas estações de metro e de comboio são jovens e são os jovens que se deslocam de trotineta pela cidade em vez de andar a pé.

Talvez agora, ao chamar mulas-expresso a estes ciclistas, as pessoas se indignem, levantem o cu da cadeira para almoçar e espairecer, em vez de esperar sentado, pelo almoço transportado, pelo ciclista, de mochila às costas, sujeito ao sol, ao frio, à chuva e à poluição.

É que se a inovação conseguiu tornar as telecomunicações tão eficazes que extinguiram a profissão de boletineiro da Marconi, não percebo porque a inovação e empreendedorismo moderno, trouxe de volta às ruas ciclistas para trabalhar, ainda por cima executar um trabalho que, quanto a mim, não faz sentido.

02
Dez19

Vagueando

Vagueando

O meu nome é Vagueando e foi vagueando por aí que compilei uma série de fotos às quais não dei título, não acrescentei legenda, nem partilhei o sentimento que foi estar nesses lugares. Apenas as partilho no link abaixo;

https://photos.app.goo.gl/TJAN92CzMUixzy1U7

Diz-se ou dizia-se, pelos menos antes do aparecimento das fake news, que uma imagem vale por mil palavras. Pois não sei, para mim as imagens deixam-me sem palavras, só consigo ver nelas recordações, boas quase sempre, porque me empenho muito na sua busca. Ela está ali, ao virar da esquina, mas nem sempre gosto do vejo, passo de novo, a outra hora com outro tempo, como menos gente de preferência, até gostar do que vejo.

Quem sabe se alguém mais inspirado do que eu, já passou por estes locais, viu ou não viu estas imagens e consiga atribuir-lhe as palavras certas.

Estou certo que sim.

 

Obrigado

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