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Generalidades

Generalidades

13
Jun21

Sintra, Sol e nevoeiro


Vagueando

O Sol, a que chamam astro-rei, tem o poder de nos aquecer e iluminar. Contudo, não tem a capacidade de escolher o que aquecer e iluminar.

Cabe à Terra, com o seu movimento de rotação e trasladação, decidir onde e quando o Sol ilumina e aquece. Para além disso, o Sol ainda está limitado na sua acção, pelas nuvens, pelas montanhas, pelo nevoeiro, pelas florestas.

Mas o Sol, não fosse ele o Astro Rei, tem gostos e simpatias e, notícia em primeira mão, confirmada pelo fact-check, o Sol gosta muito de Sintra.

Sintra não é fácil de se deixar ver, quer a turistas, quer ao próprio Sol, gosta de se esconder por baixo do nevoeiro. Até para mim, que aqui resido há 63 anos, quando está nevoeiro, tenho muita dificuldade em ver o portão da minha casa, quanto mais ver a Serra, os monumentos e os jardins.

Se o astro rei fosse dotado de movimento próprio, estacionava em Sintra. E quando resolvesse dar uma volta, passava rapidamente pelo país do sol nascente, apenas para cumprir o protocolo e vinha deitar-se junto ao mar, logo após se despedir do fim geográfico da Europa (convém referir para não se confundir com o fim político e social da mesma) e ficaria ali, eternamente, a contemplar Sintra, a sua serra, os seus palácios e o castelo.

O Sol deitado no mar, sem nevoeiro, deslumbra-se com tanta beleza e cor. A sua luz entra pelas janelas dos palácios criando sombras fantasmagóricas que não vê mas imagina.

Ao fim de tantos séculos a passar por aqui, ainda não conseguiu perceber se a beleza, a cor, a nitidez, deriva da sua própria luz ou se da reflexão da mesma na serra e nos seus monumentos.

A Terra não lhe concede tempo extra, continua no seu movimento imperturbável. O Sol, por vezes, em jeito de agradecimento, pela ausência de nevoeiro, deixa ver, por breves instantes o raio verde, mesmo onde o mar e o céu se juntam mas não se confundem.

Gostaria de dizer ao Sol que, mesmo com a sua luz filtrada pelo nevoeiro ou mesmo de noite, Sintra continua bela e tenho pena que o Sol nunca consiga ver a sua beleza nestas alturas.

Quem sabe, um dia, o Sol, possa reinventar-se e passar por cá uma noite destas, sem dar nas vistas - afinal há países onde o Sol passa por lá à meia-noite - para ver que mesmo sem a sua luz e o seu calor, Sintra continua bela e propícia ao amor.

Para que não me acusem de mentir, coisa que já fiz aqui https://classeaparte.blogs.sapo.pt/mentira-16889 deixo, no link abaixo, algumas imagens de Sintra, da sua serra e dos seus palácios onde fica evidente que o Sol e o nevoeiro têm um especial apego a esta maravilhosa e misteriosa vila.

https://photos.app.goo.gl/gmEXqwchQejoWoEy5

12
Jun21

A morte fascina-me


Vagueando

Costuma dizer-se que a única coisa cem por cento certa na vida de um ser humano é a de que um dia morre. Sendo verdade também é certo que antes de isso acontecer pagaremos, direta ou indiretamente, impostos.

Não venho desmentir nada disto, antes pelo contrário, é verdade, é uma verdade de La Palisse, confirmo por experiência própria, para já, a parte que se refere ao pagamento de impostos.

O que me fascina na morte, razão pela qual resolvi vaguear pelo tema é saber como sabe o morto que morreu.

Quem está habilitado a prestar-lhe essa informação? Que documento lhe é entregue como prova de morte (que eu saiba há por aí muita gente a ter que fazer prova de vida)? Como pode o morto aceder à vida eterna se não tem nenhuma prova que ateste que está morto?

Com as falcatruas que se fazem por aí, todos os dias, quem garante que não anda por aí malta a aceder, de forma ilegal, à vida eterna?

E depois?

O que faz o morto com o certificado? Como é que morto encara todas aquelas cerimónias fúnebres? Como vai organizar-se a partir daqui? Terá algum apoio para mudar de residência?

Recorremos aos especialistas para saber mais sobre determinados temas. Mas onde estão os especialistas nesta matéria? Não conheço nenhum necrolojólogo, nem nenhum espeleólogo mental que tenha explorado e explicado esta falha grave.

O Mundo encontrou uma forma de datar os acontecimentos, diferenciando os anos em AC e DC. Será que o morto também poderá datar os acontecimentos em AM –Antes de Morto e em DM – Depois de Morto?

Será que o morto terá direito à sua nova existência, chamemos-lhe assim, a um CCM – Cartão de Cidadão Morto? E que data constará neste cartão, a sua data de nascimento e/ou a data da sua morte, ou só esta última para dar início à contagem dos anos DM? Também se lhe averba a sua condição de morto, tal como o estado civil, no CC que estamos habituados e habilitados a usar?

O autocarro funerário anda todos os dias por ruas e estradas, sem paragens certas e sem horário definido, sem cronograma dos seus percursos. Embora o ponto de partida seja diversificado, o seu destino é sempre o mesmo e onde saem todos os seus passageiros. Não tem revisor, nem fiscal, não aceita passe social, não aceita bilhetes pré-comprados nem de ida e volta, a entrada e a saída é feita sempre pela porta de trás, só leva um passageiro de cada vez, que vai deitado e não sabe para onde vai, mas também não pode dizer que sabe que não quer ir por ali.

Quando o povo diz que temos que mudar de vida estará, porventura, a referir-se a mudá-la de Antes de Morto para Depois de Morto?

Será que única certeza que um morto tem é que nunca vai saber que morreu?

22
Mai21

Ponte 516 Arouca


Vagueando

P5190187.JPG

As pontes servem para transpor desníveis, facilitando a circulação de pessoas e bens. A criatividade humana, não satisfeita com esta útil e nobre missão, começou a embelezá-las, tanto mais que hoje se chamam obras de arte. Foi a arte e a evolução da engenharia que vieram acrescentar beleza e arrojo à utilidade de uma ponte.

Atravessar uma ponte permite-nos experimentar a sensação de voar, ainda que com os pés bem assentes na terra. Por outro lado, as pontes, por vezes, atravessam locais tão fantásticos que nos apetece ficar ali, em cima delas, apenas e só a observar.

Cruzar uma ponte, por norma, não nos deixa nervosos porque confiamos na sua solidez.

Devido à vida apressada que levamos, circulamos nas pontes, dentro de um carro, dentro de um comboio, dentro de um barco e até dentro de um avião, sem podermos parar e observar, calmamente, tudo o que as rodeia.

Mas há pontes, exclusivamente dedicadas a peões. Normalmente são mais maneirinhas, mais estreitas, mais curtas, onde nos podemos demorar e que nos oferecem grandes vistas, boas sensações e excelentes fotos, em especial quando atravessam cursos de água, cascatas, barrancos e montanhas.

Quando se junta a beleza de uma ponte à beleza de um local, conseguimos a simbiose perfeita entre o equilíbrio natural e a vida humana. É o caso da recentíssima Ponte 516 em Arouca, sobre o rio Paiva, que junta a beleza selvagem do local com a beleza arquitetónica e técnica da ponte. Juntar estas duas componentes nem sempre é tarefa fácil, mas pelo que vi, a arquitetura e engenharia portuguesa estão de parabéns.

Só se pode atravessar esta ponte a pé, não sei se com os pés bem assentes na terra (já explico), mas é um desafio em cima do desafio que foi construi-la e, simultaneamente, experimentamos uma série de sensações ao atravessá-la.

A primeira sensação é de que não temos chão que nos suporte.

Depois de passada essa desconfiança, vem a segunda sensação, a de que estamos a passear no convés de um navio que navega num mar moderadamente revolto ou a viajar de pé num comboio sem nos agarrarmos a nada.

A terceira sensação, é que estamos presos (suspensos)por arames. Os 129 tabuleiros, são unidos entre si por dois parafusos; um à esquerda e outro à direita, sendo que os mesmos dois parafusos, ligam os tabuleiros aos cabos de aço (catenárias) que atravessem toda a ponte. Ou seja, 258 parafusos, impedem que os tabuleiros, de 4 metros cada, se afastem e em simultâneo, impedem que os mesmos tabuleiros caiam. Dá uma média de 0,5 parafusos por cada metro da ponte. E assim entre balanços laterais, verticais e curiosidades, com mais ou menos nós no estômago, fazemos a primeira travessia.

No regresso, desfrutamos mais a vista, quer para os lados, quer para cima, quer para baixo. Os balanços parecem-nos mais suaves, os canais do nosso ouvido interno já fizeram as pazes uns com os outros, pelo que ficamos imunes aos balanços da ponte o que nos permite maior concentração na paisagem em especial na Cascata das Aguieiras e nos caminheiros que, lá bem em baixo, circulam nos Passadiços do Paiva.

Algumas aves que se aproximam de nós espantam-se com seres humanos naquelas alturas, naquela altura do dia, porque em nenhuma altura das suas vidas, viram ali alguma coisa sem asas.

Voltemos aos pés bem assentes na terra. A ponte é totalmente suspensa, ou seja está ancorada em dois pilares gigantes de cimento, em forma de A invertido. Cada pé do A, segura duas catenárias formadas pelos cabos de aço onde estão ancorados os tais 129 tabuleiros de 4 metros cada.

A questão aqui é que os pilares em A invertido, não têm os pés assentes na terra e, por outro lado a cabeça do A está enterrada na terra.

Assim, digo eu, o A está como a avestruz com a cabeça enterrada na areia. Será que o A invertido, a primeira letra do alfabeto nem tem coragem de ver o que está a fazer? Será que os dois pilares (ainda se fosse só um) não confiam em si próprios? Se a única coisa que liga a ponte a terra é a cabeça dos dois A, quando atravessamos a ponte podemos dizer que caminhamos com os pés bem assentes na terra?

Atravessei a ponte a pensar numa crónica recente do professor Marco Neves – Quem inventou a letra A. Explica a origem da primeira letra do nosso alfabeto. Curiosamente, o desenho da letra A deriva do desenho do A invertido que correspondia à forma de desenhar um touro. Também a letra fenícia aleph (palavra que significava precisamente «touro»), está na origem da forma que demos ao nosso A.

Ora se um touro é forte, e se se escolheu uma letra forte para a primeira letra do nosso alfabeto, logo o A, ainda que de pernas para cima, é forte e seguro. Está equiparado a um trapezista que, pendurado pelas pontas dos seus pés, de cabeça para baixo, segura a sua companheira de espetáculo enquanto esta executa uma série de exercícios, também eles arrojados, sem nunca a deixar cair.

Foi por isso que a engenharia, mais dada a números e cálculos matemáticos, se ancorou na primeira letra do alfabeto, ainda que a virado de pernas para o ar, para segurar a mais bela ponte do país e a maior ponte suspensa do mundo.

Apenas uma sugestão ao visitante, antes de entrarem na ponte pensem que estão no médico quando este vos pede para abrira a boca e o obrigam a dizer a”…”, para que possa observar a garganta. Quando entrar na ponte, diga mesmo “a…”, ou ah de espanto, fique de pernas para o ar, e desfrute.

A ponte, sem palavras e sem legendas, apenas imagens, aqui em baixo;

https://photos.app.goo.gl/4wb6qM2u7SMb3XfY7

 

 

03
Mai21

O Que se Passa de Noite


Vagueando

Nota Prévia; O texto abaixo não é da minha autoria. No final encontrarão detalhes sobre o autor e sobre o livro.

 

Uma das noites da semana passada, à hora em que as ervanárias e os majores reformados estão dormindo a sono solto e só giram pela cidade os noctívagos, as mulheres de má vida e os “chauffeurs” de “side-cars”, realizou-se uma assemblea geral das ruas de Lisboa afim de protestarem, contra o desdém ao qual têm sido votadas há tempos a esta parte pelas sucessivas edilidades que se têm sucedido no Município.

Compareceram quási tôdas as praças, largos, avenidas, ruas, calçadas, travessas e becos desta cidade de Ulisses, e o Castelo, na sua qualidade de mais idoso, assumiu a presidência, secretariados pela praça do Comércio, que representava todas a s forças vivas, e pelo Rossio, que representava os elementos avançados.

 A assemblea era variadíssima. A um lado as artérias aristocráticas, as avenidas Duque de Loulé, do lado do Conde de Valbom, o Largo do Marquês de Tancos, etc., conversavam com as ruas ricas, como as do Capelistas. O Conde de Redondo, palestrava com o Bairro Alto acêrca de mulheres. O largo da Graça dizia piadas à praça da Alegria e a um canto, a travessa do Fala-Só falava com os seus botões. Vários campos; o de Santa Ana, o de Ourique, o Grande, trazendo o pequeno pela mão, discutiam animadamente, enquanto o das Cebolas se mantinha de parte, devido ao péssimo cheiro que exalava, conversando apenas com ruas sopeiras: a rua Palmira, a rua Maria, etc. A Madalena declarava-se arrependida de ter vindo. A rua da Fé confiava absolutamente nos resultados da assemblea.

Por fim o Castelo agitou a campainha e declarou aberta a sessão.

– Minhas senhoras e meus senhores! Há muito tempo que lavra…

– Presente! – Exclamou do fundo da sala o elevador, que vinha encarregado de apresentar as desculpas das escadinhas, impossibilitadas de comparecer por falta de calcetamento.

– Não é de v.exª. que se trata – explicou amavelmente o presidente – Há muito tempo, repito, que lavra entra as ruas de Lisboa uma profunda indignação contra incúria dos municípios. Durante anos, esperaram vir a ser atendidas nas suas justas pretensões…

– A quem v.exª. o diz – interrompeu a travessa da Espera.

– Vemos, porém, que os senhores edis cada vez menos se preocupam connosco. A falta de água, por exemplo, chegou ao seu limite.

– Apoiado! – gritaram em côro o largo da Oliveirinha, a rua das Parreiras, a da Vinha, o largo da Amendoeira e o das Amoreiras.

– Eu, devido à falta de regas, estou neste estado – exclamou a Horta Sêca.

– E eu? – acrescentou o Jardim do Regedor – De não ser regado há séculos, não me crescem outras flores senão mal comportadas e batoteiros.

– A miúdo, – continuou  o presidente – lemos nas gazetas que se vão dar providências.

– Eu cá, só vendo, acredito – murmurou S. Tomé.

– Não posso ver isto com bons olhos – murmurava a rua da Inveja.

– Também eu – acrescentava a travessa do Cego.

– O certo é que todos os verões a sêca é terrível e tudo se complica, se acaso há um incêndio.

– Ponham os olhos em mim – bradou a travessa da Queimada.

– Promessas e mais promessas e nunca se passa disso – exclamou do fundo da sala a rua do Passadiço.

– Realmente, é preciso ter uma paciência de Forno – concluiu o respectivo beco.

– Noutros tempos…

– Perdão – interveio a Avenida da República – Será melhor não querer fazer política na assemblea.

– Apoiada – gritou a Avenida 5 de Outubro.

– Noutros tempos, – continuou o presidente – não há dúvida que tudo corria de outra forma…

– Muito bem – concordaram S. Mamede, Santa Marta, S. Bento, S. André e S. Pedro de Alcântara… (começa no início da página 86).

– Fora os talassas ؘ– gritavam do fundo da sala.

– Ordem! Ordem! – suplicava a rua da Paz.

– Certas coisas não eram toleradas – insistiu o Castelo.

– Isso é piada para mim? – perguntou a travessa das Salgadeiras.

– Não foi minha intenção referir-me a V.Exª.– explicou o Castelo.

– Será bom haver tento na língua, que eu á estou de atalaia – aconselhou a rua da Barroca,

– Parte-se-lhe a travessa da Cara – propôs todo Gingão, o beco do Quebra-Costas. A assemblea começava a agitar-se. Um chôro convulsivo de criança ouviu-se para um canto. Era a rua da Infância assustada com o barulho. A calçada de S. Francisco fazia gestos desordenados. O presidente agitava desesperadamente a campainha. Puséram S. Vicente de fora, e pouco a pouco, a calma renasceu.

– Outro motivo de queixa nosso, – continuou o presidente – é alteração de nomes a que foram sujeitas muitas das aglomerações de Lisboa. Algumas ruas que eram conhecidíssimas, passaram a ser verdadeiros problemas. Ruas fêmeas passaram a ser machas, travessas machas passaram a ser fêmeas. Até parece mal em certos casos. Dá que falar aos becos da vizinhança.

– Eu cá, – explicou o Forno do Tijolo – passei a ser Angelina Vidal.

– E eu, – acrescentou a Madre de Deus – sou agora Manuel Bernardes.

– Só o que falta – bradou a rua da Rosa – é que ainda me chamem rua do Barbosa …

– Está tudo maluco – comentava a meia voz a travessa de Rilhafoles.

– Já não há religião, minha boa amiga – explicava a dos Fiéis de Deus.– E muita falta de patriotismos – acrescentava o Campo Mártires da Pátria.

– EU só quero ouvir falar de um certo número de coisas, estou que nem pólvora – resmungava a rua do Salitre.

– <À noite a iluminação é precária. De dia ainda a coisa escapa…

– Não há dúvida – comentou a rua do Sol.

– Mas, mal anoitece, há entre nós quem não consiga ver um palmo diante do nariz e se transforme em valha –couto de gatunos de assalto. É uma vergonha. A respeito de limpeza de vassoura, temos conversado.

– Peço a palavra sobre o assunto – requereu a rua das Pedras Negras.

Quanto a obras e canalizações é um inferno. Sei de algumas colegas a quem deixam meses e meses de barriga aberta. Outras estão por concluir. Outras levaram anos para chegar a seu têrmo.

– Menina e moça, – explicou a rua Bernardim Ribeiro – me levaram da Sociedade Farmacêutica até Gomes Freire… Pois ainda não tenho os prédios todos.

– Explicam os vereadores dos vários pelouros, – continuou a presidência – que tudo são questões de dinheiro. Os cofres estão exaustos, os funcionários e operários cada vez reclamam mais ordenado e férias. Ora nós não temos nada com isso. Se querem que continuemos a deixar-nos pisar, hão-de nos tratar com toda a consideração. Pretendemos ser varridas, regadas, iluminadas, policiadas, concluídas. Proponho, pois, que se dê um prazo para que as nossas pretensões sejam atendidas. Terminado que seja, levantar-se-ão as pedras das calçadas. Faremos sabotagem da planta da cidade.

O Atêrro passará para o Campo Grande, o beco do Monete virá para o lugar da rua do Ouro, o Chiado mudar-se-á para Campolide, na rua Fresca haverá calor, a rua do Meio desviar-se-á para o lado e o ministério do Trabalho encontrar-se-á de-repente no Cata que farás. O Alto do Pina pôr-se-á de cócoras…

Aqui o largo das Necessidades pediu licença para ir lá dentro.

– A rua da Emenda – continuou o orador – ficará pior que o soneto, o Calhariz deixará de estar à Bica etc. etc.

– E, se estabelecêssemos um governo militar, sob a presidência da Praça Duque de Saldanha? – propuseram as ruas dos Defensores de Chaves , dos Heróis de Quionga e dos Vencedores de Naulila?

– Não está mal a descoberta – comentaram as ruas Vasco da Gama, Bartolomeu dias e Diogo Cão.

– Acho preferível, – propôs com o seu reconhecido bom senso a Conceição Vélha –  organização de um ministério de competências, que podia ser o seguinte:

Interior – Chafariz de Dentro.

Comércio – Ruas dos Bacalhoeiros.

Guerra – Rua 4 de Infantaria.

Marinha – Rua do Arsenal.

Instrução – Travessa das Escolas Gerais.

Estrangeiros – Ferregial de Baixo.

Finanças – Rua Pedro Cem.

Colónias – Rua das Pretas.

Posta à votação a proposta, foi aprovada por unanimidade e a sessão encerou-se com uma grande salva de Ruas Novas das Palmas. O Largo de Andaluz dançava à espanhola, o beco do Imaginário nunca imaginaria que corresse tão bem e a rua António Pedro encolhia os ombros, murmurando:

– Calhou!

Este conto faz parte de um livro de bolso, Colecção Civilização, nº 34 - Série Amarela, com o título Contos Escolhidos Humorísticos. Foi composto e impresso, em 1937,  na Tipografia e Encadernação "A Portuense", na Rua de Vizela, 80 - Portto.

Autor André Brun, nascido em Lisboa, na Rua do Salitre em 1881.

A ortografia deste conto é a que consta do livro.

 

23
Abr21

Espectador de rotundas, cruzamentos e entroncamentos


Vagueando

Não é que tenha que dar satisfações da minha vida a ninguém. Contudo, quando (mal) alimentamos um blog ainda, que sem a responsabilidade de alguém morrer à fome por não ter colocado nada no prato virtual - ainda me lembro da malta que se levantava da mesa para ir apanhar a fruta ao FarmVille para alimentar o Tamagotchi – volto hoje ao contacto.

Resolvi ir abastecer o carro. Esta coisa do cartão fidelidade que dá pontos e descontos, obrigou-me a ir ao posto de combustível habitual. Em boa verdade foi mais uma desculpa para sair de casa, dentro do Concelho. Cumpri com as regras, fui para fora (de casa) cá dentro (do Concelho).

Já tinha tentado dar uma volta com o carro dentro de casa, mas por azar tinha posto o ano passado umas floreiras na escada e, por isso, não conseguia chegar à sala onde tinha espaço para fazer drifting.

Para chegar à bomba (atenção a nossa saúde mental não anda muito bem, não pensem que estou a planear algum ataque bombista) - tive que passar por 6 rotundas, 23 entroncamentos e ainda um cruzamento

Como sabem, pelo menos aqueles que conduzem, quem entra numa rotunda (e bem) tem que esperar que quem está lá dentro se vá embora. Chego à primeira rotunda e espero que todo trânsito passe e também esperava que quem saísse antes de chegar onde estou à espera, fizesse, tal como está obrigado, o pisca a informar que vai sair, onde eu, pacientemente, estou à espera para entrar . Como ninguém faz pisca, fico ali como espectador do trânsito que passava.

Com a falta de espectáculos de âmbito cultural, apercebo-me que é culturalmente aceite o desrespeito pelo Código da Estrada no que respeita a sinalizar as mudanças de direcção. Percebem agora porque há filas de trânsito?

Fui ficando a contar quantos carros passavam por mim e quantos saíam, sem fazer o tal pisca. Até que me buzinaram, perdendo a contagem. Milagrosamente uma brecha e lá fui. Nas outras 5 rotundas as coisas não melhoraram.

Nos entroncamentos também foi engraçado, pelas mesmas razões, quem saía à direita da estrada onde eu, pacientemente, estava à espera para entrar, não fazia o pisca e lá ficava a contar carros enquanto esperava, até que vinha a buzinadela, que coincidia com as brechas e lá ia eu.

Estão a imaginar o que aconteceu nos restantes 22 entroncamentos. Mais do mesmo pois claro, mas com uma novidade. Num deles, uma daquelas carrinhas de caixa alta resolveu parar mesmo na esquina, pelo que não via nada mais do que um caixote branco enorme ao meu lado esquerdo e ali fiquei à espera que o condutor do caixote chegasse para ter a visibilidade necessária para sair dali em segurança.

Falta o único cruzamento. Chego, paro, escuto e olho. Esqueci-me que não era preciso escutar, afinal  era só um cruzamento e não uma passagem de nível. Incrível, não vem ninguém de lado nenhum. Avanço, sem medo, mas eis que um grupo de ciclistas, me aparece de frente, em contramão, saído dum canavial e ainda me insultam porque conduzo um carro de combustão interna, a gasóleo, que é um perigo para o ambiente, e para as pessoas que respiram, agora de máscara, aquela trampa que sai dos gases de escape. Ainda bem que o meu carro só tem um escape, caso contrário, tinha sido linchado ali mesmo.

Estava quase a chegar a casa, reparo que ainda tenho menos combustível do que quando saí. As filas nas rotundas, nos entroncamentos, e no único cruzamento, tinham esgotado o combustível a minha paciência e aliviado a minha carteira.

Aproveito uma rotunda, volto para trás, chego na reserva ao posto de combustível, atesto, pago e sigo para novo calvário.

Repetem-se as peripécias, mas consigo chegar, finalmente a casa hoje, com menos de meio depósito, um pouco mais do que tinha quando saí para abastecer, em 3 de Março.

Está explicada a razão pela qual não tinha escrito mais nada.

23
Abr21

Super(Des)Liga


Vagueando

Florentino Pérez é a cara do Real Madrid e terá sido o percursor da Superliga que, para já, caiu com estrondo.

O mesmo Florentino Pérez contratou Julen Lopetegui para treinador do Real Madrid, quando este estava ao serviço da selecção espanhola, dois dias antes do início do primeiro jogo desta selecção no Campeonato Europeu de Futebol, em 2018.

A criação da Superliga não era mais de que um clube de clubes ricos que, jogando entre si, recolheriam as receitas milionárias que esses jogos gerariam, para proveito próprio.

Nesta Superliga não se entraria por mérito desportivo mas sim por convite. Entenda-se por convite, o valor acresentado –elcontado - que o convidado podia trazer aos participantes, ou seja, a subversão completa daquilo a que ainda (embora já muito mal) conhecemos como desporto.

Os ingleses, honra lhe seja feita, deram pelo erro tremendo e, num acto de humildade, as desculpas apresentadas pelo dono do Liverpool aos seus adeptos e de coragem, a rapidez e firmeza com que Boris Johnson dissuadiu os clubes ingleses a desistirem da ideia, com a ameaça da criação de um grande imposto de luxo e entravar os procedimentos de emissão de vistos de residência para jogadores estrangeiros em Inglaterra.

É por estas atitudes que tenho pena que os ingleses tenham abandonado a União Europeia porque são, sem sombra de dúvida, uma importante fonte de equilíbrio de poder.

03
Mar21

A liberdade foi encerrada


Vagueando

O Parque da Liberdade em Sintra está encerrado.

A liberdade no parque está encerrada, a liberdade de ir ao Parque da Liberdade está proibida, a liberdade de ir olhar para parque está bloqueada, a liberdade de conduzir até ao parque está interdida.

As ruas, com ou sem saída, ruelas, travessas, becos, alamedas, avenidas, marginais, vias rápidas, panorâmicas, caminhos, trilhos, pontes,  cidades, povoações, nas aldeias, tal como o Parque, ficaram sem liberdade.

A liberdade é o maior bem da humaninade, habituados que estamos a usufrui-la, andam por aí a pedir que a limitem, em nome de uma alegada maior segurança.

Não me deixam andar, não me deixam caminhar, não me deixam sair, não me deixam conduzir, não me deixam sequer fruir o ar que tenho de respirar.

Obrigam-me a proteger-me como se me pudesse proteger. Proteger-me deste vírus é abdicar de respirar e ficar em prisão domiciliária. Sim preso, sem nunca ter sido julgado nem condenado por qualquer crime.

Eu só quero proteger-me do encerramento da liberdade.

Podem encerrar a liberdade do parque e dentro deste, mas não a podem encerrar - eternamente - fora dele. 

Para encerrar a liberdade dentro do mesmo portão, dentro do mesmo parque substitui-se um cartaz temporário por um com ar de definitivo, talvez porque seja isso mesmo, definitiva a perda de liberdade.

Liberdade, liberta-te desses muros, sobe pelas árvores, salta pelos ramos, voa ao sabor do vento, mistura-te com o ar, solta-te e apanha as minhas palavras, espalha-as por aí, por todo o lado porque as palavras não têm vírus, não vão desproteger ninguém, esteja livre ou confinado.

24
Jan21

Não, não fui votar


Vagueando

Como se a pandemia não bastasse para nos agredir, desmoralizar, matar e aniquilar países, destruindo até quem não apanha o vírus, hoje deixará mais alguns portugueses, que não conseguiram ir votar, com um sentimento de culpa.

Foi o meu caso.

Encontrei-me perante o dilema entre ir votar ou manter-me em casa em isolamento profilático. A pensar em todos os outros e para ficar de consciência tranquila fiquei em casa.

Contudo, não fiquei com a mesma consciência tranquila por não ter ido votar.

Tenho plena convicção (mas lá está não sou médico) que se tivesse ido votar, do ponto de vista das regras sanitárias em vigor, não teria colocado ninguém em risco.

Almocei com o meu filho e namorada no dia 10 e 11 de Janeiro, sendo que no dia 11 a namorada queixou-se de dores de garganta. A partir daí não voltámos a ter contactos.

A namorada acabou por testar positivo a 14 de Janeiro e o meu filho, soube o resultado já à noite, a 15.

Dia 16 comuniquei esta situação ao SNS, informando que o último contacto tinha sido a 11 de Janeiro. Ainda assim, foi decretado  o isolamento profilático durante 14 dias a partir de 16. Fui ainda informado que seria contactado ao fim de 3 dias pelo delegado de saúde da minha área de residência o que, até hoje, nunca aconteceu.

Entretanto fui registando, diariamente, os meus sintomas (nunca tive qualquer sintoma da doença) no sítio do SNS. Tentei ao longo de toda esta semana contactar o delegado de saúde para lhe explicar a situação para poder ser testado e, em caso de o resultado ser negativo, poder ir votar.

Nunca consegui.

Precavido, tinha-me inscrito para votar a 17, obviamente, não fui, mas queria ir hoje.

Amanhã, dia 25, às 13h, passaram 14 dias que tive o último contacto e estou convicto que poderia ir votar sem risco, se o fizesse hoje à tarde, mas não fui.

Só lamento não ter conseguido contactar, nem por email, nem por telefone o Delegado de Saúde e que o SNS aceite como boas as informações que foram sendo prestadas, telefonicamente, pelo meu filho que entretanto já teve alta (mas não tem qualquer comprovativo) e foi votar hoje e não tenha considerado o meu isolamento profilático a partir de 11 de Janeiro, em vez do dia 16.

Lá existirão razões para este procedimento mas, perante a gravidade da doença, tratar-se de tudo à distância, por telefone, sem qualquer comprovativo, parece-me que algo não bate certo nesta narrativa de terror que nos é servida por todos os especialistas, cientistas, jornalistas, políticos, médicos, cientistas, comentadores e sei lá mais quem, durante 24 h por dia.

09
Jan21

Isto não é nada


Vagueando

O sonho comanda a vida?

Não sei.

Hoje sonhei com o nada.

Depois de acordado dei comigo a pensar em nada. Não pensar em nada é tentar reflectir sobre o que não existe. Será isso criatividade? Se sim, será a criatividade um produto do nada?

Esta é uma tentativa, criativa, presumo eu, de escrever sobre nada, um vazio de ideias que não dão em nada, mas que ainda assim, só por tentar, pode ser melhor que nada. Nada, não é mais nada do que a negação da existência de um objecto que simbolize o nada. A única coisa que simboliza o nada é a palavra nada.

Depois de dias sem fazer nada, por causa do confinamento, sem pensar em nada, nada fazia sentido, muito menos escrever nada de nada. A primeira coisa foi refletir se um texto sobre nada pode ter princípio, meio e fim, e eventuais conclusões.

O ideal era escrever sobre uma folha branca, em letra branca, de preferência a Bold, em que as partes mais interessantes sobre o nada fossem realçadas a branco.

A junção de todas os nadas dão luz ao nada.

A luz deixa ver o branco, que nada mais é do que junção de todas as cores do espectro cromático.

Como aqui só há preto e branco e se o preto é a ausência de luz  e, repito, o branco só se reflete na presença da mesma, chegamos à conclusão que isto é uma grande confusão, mais nada.

A expressão, não somos nada, como se pôde verificar com a pandemia de Covid 19 , assenta que nem uma luva nos seres humanos, que já pensavam que eram deuses.(1)

Por outro lado alguns velhos, habituados a dizer que não valem nada, ainda que alguns estejam a sobreviver estoicamente a esta terrível doença, podem ser eles a grande personificação de que, afinal, não sendo nada, são muito mais do que nada.

Decido sair à procura do nada, cheguei ao um café, bebo um que não era nada mau, procurei pelo José, especialista em nada, disseram-me que saiu há nada, ainda deve estar por perto.

Procurei-o incessantemente, nada. Tinha-se sumido.

Nada a fazer, tenho que encontrar o nada, sem ajuda de nada nem de ninguém. É sempre bom contar com a ajuda de algum especialista, mas em nada, só conheço o José.

Em menos de nada, tento concentrar-me em nada, para que nada me falta na busca. Entro num carreiro que nada tinha de largo, nem saída à vista,  muito menos qualquer sinal de nada. Não, por aqui não se aprende nada.

Nada como voltar para trás.

E agora que estou novamente sem nada que se aproveite para o meu estudo. Nada de desanimar, afinal quando parti à procura de nada, sabia que não iria ser nada fácil.

Não conhecendo nenhum objecto que designe o nada, nem ninguém que me ajude a encontra-lo, não fiquem a pensar que o nada não existe. Aliás, como já referi, existe a palavra nada para designar o nada.

Admito que a esta altura, quem me seguiu até aqui, não está a perceber nada. Bem vindo,. já somos dois, até já eu estou baralhado de nadar em tanto nada é como se estivesse a nadar contra uma corrente de nada.

Estou convencido que não me faltou nada de nada ao falar de nada.

Contudo, depois de todo este trabalho, descobri que nada se aproveita deste meu esforço.

Gastei o meu tempo para nada,  estou na praia, mesmo com muito frio, olho para o mar e penso para com os meus botões; Nada mas é daqui para fora, assim como assim, se nada é a não existência de qualquer coisa, aproveito a realidade de ter um mar imenso à minha frente e não posso fazer de conta que não dei por nada, porque a água esfria-me os pés.

 

Votos de um excelente 2021 e que não vos falte nada.

(1) - Yuval Harari em “Homo Deus – História Breve do amanhã”

  • A morte tornou-se um simples problema técnico.
  • Não alcançámos a igualdade — mas estamos perto de alcançar a imortalidade.
  • A história começou quando os homens inventaram os deuses e terminará quando os homens se transformarem em deuses.
28
Dez20

2020 - Estás despedido.


Vagueando

No final de 2019, surgiu a ideia de escrever no último dia do ano, apenas e só porque sim.

Escrever no último dia do ano  (link abaixo)

https://classeaparte.blogs.sapo.pt/escreve-no-ultimo-dia-do-ano-7807

Este ano é diferente, não vou escrever no último dia do ano, porque não.

Anseio pelo último dia do ano, desde 11 de Março de 2020, altura em que a OMS declarou a situação pandémica.

Neste sentido, estou desde já a antecipar-me para não ter que me despedir de 2020 e aproveitar para, antecipadamente, despedir o ano de 2020.

Caso 2020 não perceba português, digo, you are fired.

Que me perdoe a ciência que, em tempo record, desenvolveu uma vacina. Espero poder agradecer, devidamente à ciência em 2021.

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