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Generalidades

Generalidades

13
Set21

Competência vacinal


Vagueando

Não existem dúvidas que o processo de vacinação contra a Covid 19 em Portugal foi um êxito estrondoso e até um exemplo para o Mundo. E parece ser unânime que o sucesso desse processo tem um nome, Almirante Gouveia e Melo.

Contudo, não posso deixar de relevar o papel da EU, nomeadamente da Presidente da Comissão Europeia, Ursula Gertrud von der Leyen, na aquisição das vacinas, sem o qual este processo, por mais competente que fosse a sua gestão, nunca seria tão eficaz e rápido.

Reconheço ao Almirante Gouveia e Melo a grande capacidade de prever, gerir, adaptar e implementar os procedimentos necessários para maximizar a capacidade instalada. Desde a segmentação por idades à modalidade casa aberta e à possibilidade de se tomar a segunda dose em qualquer posto do país, até às suas deslocações imediatas aos locais onde estavam a ocorrer anomalias, demonstraram competência, honestidade e muito profissionalismo.

Importa referir, sobre as suas deslocações aos locais de vacinação, dois sinais claros que deixava a todos os intervenientes no processo;

Um - De que havia empenho de quem estava a gerir, que se estava em cima do acontecimento, que não seriam toleradas as habituais quintinhas e compadrios, dado que tudo estava a ser acompanhado e controlado.

Dois – De que havia apoio de cima e que esse apoio se materializava em correções imediatas e que depois delas, ficava demonstrado, rapidamente, que o processo melhorava.

Outro dado importante, utilizou-se no processo a prata da casa. A prata da casa, foram funcionários públicos, técnicos de saúde pública que a maioria das vezes são acusados de não trabalharem ou de não quererem trabalhar.

Muitos gestores públicos e privados, devem sentir-se envergonhados. Quando existe competência, quando a motivação é verdadeira, quando a missão é credível, quando se acompanha os intervenientes, quando os objectivos são atingíveis e perceptíveis ao longo do tempo, as equipas funcionam e orgulham-se do seu trabalho.

O Almirante, demonstrou que a gestão, para ser boa, não necessita de ser paga e ainda premiada a peso de ouro para funcionar.

De aplaudir também, o papel das autoridades, dos voluntários e também do povo português cuja mobilização foi extraordinária.

Para aqueles que afirmam frequentemente, não servir os militares para nada, ficou provado que não só fazem falta, como são competentes.

Com orgulho, concordo em absoluto que o processo de vacinação foi um tremendo êxito e agradeço a todos a lição que deram ao país, oxalá o país tenha aprendido alguma coisa com ela.

23
Ago21

Cresci deitada


Vagueando

P7280475.JPG

 Acredito que seja por causa desta árvore no Gerês, que dá nome aoTrilho da Preguiça, onde  pode ser vista. Contudo, se tem preguiça de andar, garanto-lhe que nunca a vai ver.

 

Da terra vem o meu sustento

Das pedras vem o meu encosto

Da paisagem vem meu brilho

Da copa vem a minha beleza

Inclino-me e reclino-me nestas pedras

Sacio o olhar de quem passa

Fico estranha para as árvores que olham para mim

Fui esperta, deitei-me nas pedras, na hora certa

Certa de que teria mais encosto e mais descanso

O vento não me abana, apenas me embala

Aproveitei o que tinha para crescer sem esforço

Descobri com o tempo, na velhice, ficarei amparada

Não preciso preocupar-me com mais nada

 

20
Ago21

Já fui árvore e árvore ainda sou


Vagueando

P7280473.JPG

Não nasci assim, torta. Entortaram-me.

Não nasci assim seca, secaram-me.

Não era deste tamanho, cresci.

Não fui como estou, mas agora sou.

Não era daqui, viajei para cá.

Não era árvore, era semente.

Já não sou senciente, nem doente, nem sequer estou dormente, morri, não sendo gente. Morri, pasme-se de pé, assim, como me ainda vê, depois de muito retorcida pelo vento.

Estou morta, na paisagem tratam-me por resistente.

Estou sem vida como se vê, dou vivas à vida que me vê.

Sou um peso morto, apoio o peso da vida de outras espécies que se agarram a mim, como se eu, morta, fosse a sua tábua de salvação.

Sou abraçada por caminhantes, que não se podem agora abraçar, fotografada por curiosidade, quiçá por me acharem bela, observada por muitos, idolatrada por paisagistas, pintada por artistas, que me chamam natureza morta.

Já não sinto o vento a retorcer-me nem abanar-me, já não sinto o frio a gelar-me, nem a chuva a molhar-me, apenas percebo que sou torta, depois de morta, quem se importa!

15
Ago21

A mudança do espectáculo deplorável e anárquico


Vagueando

 

Nasci no mesmo ano que a RTP. Neste sentido, cresci a ver crescer antenas agarradas às chaminés das casas e no cimo dos prédios.

Primeiro VHF para ver o único canal, a preto e branco e mais tarde de UHF, para ver o segundo canal, ainda e também a preto e branco.

Com a chegada da TV por cabo as antenas deixaram de ser necessárias. Contudo, a TV por Cabo não chegava a todo o lado. Assim foram-se montando, ao lado das antigas antenas, umas parabólicas que começaram a dar um ar de que andávamos todos à procura de um sinal de vida extra terrestre.

Sempre na vanguarda da inovação e da modernidade, o País começou-se a preocupar-se com a retirada das velhas antenas de TV e com  a montagem das novas parabólicas, para evitar a poluição visual.

Estávamos em 1989 quando se publicou o Dec. Lei 122/89 sobre a “Disciplina a instalação de antenas colectivas de recepção de radiodifusão sonora e televisiva” Como se depreende do um excerto abaixo deste Decreto Lei, já havia sido publicado um anterior que, curiosamente, mas não surpreendentemente, não produziu os efeitos desejado pela letra de lei.

Na verdade, os objectivos visados pelo Decreto n.º 41486 não foram atingidos, uma vez que não se evitou a proliferação de antenas de recepção, das quais a maior parte instaladas sem obediência mínima aos princípios estabelecidos, dando origem ao espectáculo deplorável e anárquico que hoje se pode observar em quase todos os telhados dos prédios dos grandes centros habitacionais.

Bom, mas a coisa lá foi e hoje o espectáculo deplorável e anárquico dos telhados dos prédios cheios de antenas é coisa do passado.

Missão cumprida!

O caos das antenas até era compreensível, porque se tratava de pessoas singulares que queriam ter acesso à televisão e, muitas vezes, eram as próprias que instalavam as suas  antenas.

Com advento da TV por Cabo o assunto ficou a cargo de empresas, altamente tecnológicas, inovadoras, focadas no cliente, apostadas na prestação de um serviço de excelência, de acordo com as melhoras práticas de mercado e de segurança e no estrito cumprimento da lei.

Recordo-me, em Setembro de 2018, o presidente da Altice, em nome da segurança de pessoas e bens, referia que a Vodafone estava a aceder de forma ilegítima aos seus postes e nada garantia que esses acessos, que não sabiam se era feitos ou não por um técnicos credenciados, podiam sobrecarregar esse poste com mais cabos e que as tensões provocadas por esse aumento, poderia levar à queda do poste. E acrescentava que, obviamente, a Altice estava a tomar medidas junto das autoridades competentes para, não só fazer valer aquilo que era de lei e que lhe era devido, mas também para garantir a segurança e a integridade das pessoas que circulam na via pública, junto dos postes espalhados por todo o país.

Sucede que o espectáculo deplorável e anárquico, pese embora a conversa do presidente da Altice, mudou-se das telhados para os postes.

Cada vez que olho para um poste de cabos de telecomunicações pergunto-me o porquê de tanta desarrumação e tanta anarquia e pergunto-me também se isto é que é inovação, sustentabilidade, segurança no trabalho e se as imagens dos postos que podem ver acima fazem parte do ADN destas empresas.

Não sei se existe, nem me dei ao trabalho de procurar, alguma lei que regule a montagem de cabos nos postes, mas se existe, o que está a acontecer é o seguinte; •

  • Ninguém está a respeitar a lei. 
  • Estarão à espera de uma nova lei para, aí sim, cumpri-la.
  • Ninguém fiscaliza. 
  • As alegadas medidas que a Altice tomou em 2018, não serviram para coisa nenhuma

A acescer a esta anarquia, juntou-se outra que tem a ver com a vegetação (que não sei porquê) ninguém corta nem apara, o que aumenta a carga sobre os postes, com a tensão criadas pelas ramagens da vegetação. 

Todos os postes fotografados estão em Sintra e, nenhum deles, está a mais de um 1km do centro histórico desta vila, Património Mundial.

Se isto é assim por aqui, o que não se passará de pior pelo país.

Mas que bandalheira. 

11
Ago21

Uma questão de respeito


Vagueando

 

Afinal quem não respeita quem?

Relembro aos ciclistas da foto o número 2 do artigo 90º do Código da Estrada;

Os velocípedes podem circular paralelamente numa via, exceto em vias de reduzida visibilidade ou quando o trânsito é intenso e desde que não causem perigo ou embaraço ao trânsito. Se pedalarem em grupo, devem fazê-lo em fila indiana ou aos pares, não sendo possível a circulação em paralelo de mais de dois velocípedes.

As associações de defesa dos ciclistas e bem, defendem-nos e até mandaram fazer, logo que saíram as alterações ao Código da Estrada, uns sinais todos catitas a pedir respeito pelos ciclistas, como é o exemplo deste da FPCUB Federação Portuguesa de Ciclistas e Utilizadores de Bicicleta. Ao fazê-lo estão a pedir a terceiros (que obviamente têm essa obrigação)  que também zelem pela segurança dos ciclistas.

Não deveria a FPCUB, fazer uns sinais a pedir aos ciclistas respeito pelos automobilistas e explicar exaustivamente aos seus associados, que esse respeito só aumenta a sua própria segurança?

Não são eles, ciclistas, os utilizadores vulneráveis que ao comportarem-se desta forma, só se tornam ainda mais vulneráveis? E não são eles, ciclistas, também peões e automobilistas?

20210822_083943.jpg

A rua na imagem acima é de sentido único, como se vê pela posição dos carros estacionados e possui dois sinais bem visíveis de proibição de entrar na mesma.

O que leva estas 4 criaturas (lá no cimo da foto antes da curva), classificadas pelo Código da Estrada, como utilizadores vulneráveis, a subir a rua em sentido contrário, ocupando toda a faixa de rodagem, uma vez que nem em fila indiana circulam?

Será que estas 4 criaturas, acham que a  segurança da sua vulnerabilidade, está exclusivamente a cargo de terceiros, automobilistas e -curioso- ciclistas, também utilizadores vulneráveis, que legitimamente, circulam no sentido descendente?

Uma pergunta final às autoridades; Quantas vezes foram abordados/sensibilizados ou mesmo multados estes grupos de ciclistas que frequentemente usam, desta forma as estradas portuguesas?

Um conselho final aos ciclistas; Se tiverem dúvidas como devem conduzir as suas bicicletas nas estradas, deixo abaixo o link para o Manual da ANSR para ciclistas.

 http://www.ansr.pt/Campanhas/Documents/Guia%20do%20Veloc%C3%ADpede%202014/Guia%20do%20Condutor%20de%20Velocipede.pdf)

A segurança nas estradas, não depende só de alguns mas sim do comportamento responsável de todos.

 

10
Jul21

A Propósito de Motas


Vagueando

Generalizou-se a ideia de que conduzir uma mota, sendo símbolo de liberdade, mas já não de cabelos ao vento, porque entretanto se ganhou consiciência de necessidade (obrigatoriedade) de usar capacete para protecção do motociclista, se pode "ultrapassar", nalgumas cabeças até legalmente, algumas regras do Código da Estrada.

Tendo conduzido várias motas, sem nunca ter sido dono de nenhuma, gostaria de deixar aqui um exemplo do perigo de contornar algumas regras do Código da Estrada.

Há pouco tempo circulava a pé numa avenida, com três faixas de rodagem para cada lado e com semáforos. Aguardava pelo sinal verde para peões, mas como o trânsito estava parado e existia um polícia no local este decidiu mandar parar o trânsito que gozava se sinal verde e mandar avançar os peões.

Um motociclista, guiando-se pelo sinal verde, não tendo visto o polícia seguia no meio de duas filas de trânsito a uma velocidade desproporcionada à situação com se estava a deparar e quase me atropelou na passadeira. O acidente só não aconteceu porque me apercebi da sua vinda mas, ainda assim, pensei que iria parar.

Não obstante vir em contravenção com o estipulado no Código da Estrada, insultou-me sem se aperceber da presença do agente de autoridade que o mandou encostar imediatamente.

Não sei o que se passou a seguir, porque fui à minha vida, mas constato que frequentemente, os motociclistas usam o seu conceito de liberdade (quiçá um pouco egoísta) para ignorar o Código da Estrada, até naquilo que mais os desprotege, nomeadamente quando realizam ultrapassagens em zonas onde a sinalização o proibe e o mais puro bom senso desaconselha e isso, muitas vezes, dá mau resultado.

Como dizia António Variações, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

 

04
Jul21

Comprar gato por lebre


Vagueando

Todos conhecemos a expressão gato por lebre. Surgiu em tempo de guerra, devido à pobreza e escassez de alimentos. Assim  era comum comerciantes venderem carne de gato no lugar de lebre, já que sem pele, estes dois animais são parecidos.

Agora gato por galo, aposto que não conhecem.

Sucede que num momento de distração vi na secção de congelados de um supermercado, filetes de peixe gato, só que, lá está o nosso cérebro prega-nos umas partidas, li que eram filetes de peixe galo.

Como gosto de grelhar filetes de peixe galo num fio de azeite, temperados apenas com sal e limão, só quando os fui buscar ao congelador verifiquei o erro.

Nem vou comentar o sabor dos fileletes de peixe de gato, porque aqui houve gato, a culpa foi minha e foi um grande galo!

04
Jul21

Sentado num banco


Vagueando

20210703_083931.jpg

 

 

Sentado num banco

Será um velho? Talvez!

Cabelo, muito pouco e branco

A morte já lhe marcou vez

 

Sentado num banco

Que não é de jardim

Ganha-se com alavanco

Até haver um motim

 

Sentado num banco

Que é de jardim

Que beleza que espanto

Ainda bem que vim

 

Sentado num banco

Observo e desfruto

Homenageio um santo

E fumo um charuto

 

Sentado num banco

Não se está nada mal

Nem sequer me levanto

No Jardim Condessa de Seisal

 

Sentado num banco

Com outro ao meu lado

Estou a ver se canto

Mas fico sossegado

 

Sentado num banco

Ninguém à minha volta

Tenho que ser franco

Este nevoeiro revolta

 

Sentado num banco

Espero coisa nenhuma

Sinto um solavanco

Chegou a bruma

 

Sentado num banco

Mesmo mal atamancado

Descanso, estou manco

Fico aqui mais um bocado

 

Sentado num banco

Esperando por nada, aguardo

Vejo passar um saltimbanco

Era ele o Joe Berardo

 

Sentado num banco

Aguardo malta de renomes

Não vejo ninguém estanco

Detido o André Luís Gomes

 

Sentado num banco

Não quero mais nada

Pilharam o Multibanco

Nem escapou a entremeada

16
Jun21

O drama de uma folha em branco


Vagueando

20210616_130922.jpg

 

Aquela folha havia sido cuidadosamente retirada de uma resma de quinhentas outras irmãs, que se encontravam acondicionadas num pacote protetor e depositada em cima de uma escrevaninha ao lado de uma caneta.

Estranhou, estranhou mesmo muito, até porque à sua frente tinha uma pessoa que segurava a caneta, não falava, quase não se mexia, mas parecia estar em grande esforço e sofrimento.

Enquanto esteve acondicionada naquela resma, bem embrulhada, protegida da humidade e da luz, foi ouvindo as conversas entre as suas irmãs e, dessas conversas nunca ouvira nada que se assemelhasse ao que lhe estava a acontecer.

As conversas decorreram ao longo do tempo e foram muitas. Desde a saída da fábrica, passando por vários transportes, até ser arrumada num armário, por baixo de uma impressora, onde o barulho era o pão nosso de cada dia, foi percebendo o destino que lhe estava destinado.

Assim, enquanto estupefacta observava o sujeito, foi recordando o que ouviu ao logo dos tempos, para ver se percebia porque razão estava ali. Tinha sido fabricada de acordo com uma fórmula Premiu, reciclada e com novas fibras com o objetivo de melhorar os resultados nas impressões a laser e a jacto de tinta. Tinha 80 g.m¯², High Performance, Super White.

Ainda por cima, tinha aprendido, também em português, umas coisas sobre as suas qualidades, tais como; ser multifuncional, ser de excelente qualidade de impressão e de oferecer maior proteção para a impressora.

Tinha sido distinguida pelos consumidores como a mais eficiente em toda a Europa.

Ouvira também as suas irmãs contar histórias de outras folhas, nomeadamente sobre quando eram chamadas a cumprir o seu papel. Era sempre de urgência, os utilizadores rasgavam furiosamente os pacotes, onde estavam acondicionadas, batiam-nas em cima de mesas para ficar bem alinhadas - como se não estivessem já – folheavam a resma rapidamente para a descomprimir e despejavam-nas dentro de uma gaveta, normalmente quente, de uma impressora.

Era nesta altura que mostravam o seu valor, correndo dentro daquela máquina infernal que lhes despeja tinta preta ou de várias cores, numa das faces ou, pior, nas duas, em voltas e mais voltas dentro daquela caranguejola sofisticadíssima, mas horrenda e barulhenta.

Aprenderam a manter sigilo sobre o teor dos assuntos que lhe depositam em cima, sem refilar ou protestar, já que foram ensinadas a não ter opinião nem direito de veto sobre a temática que lhe é impressa.

Não obstante, reza a história sobre algumas destas folhas, que ao perceberem o género de coisas com que vão ser impressas, se revoltam e amotinam, encravando a máquina de propósito. A impressora barafusta e dá mensagem de paper jammed o que provoca a ira do utilizador que se vê obrigado a abri-la, sujar bem as mãos, retirar as folhas revoltosas e começar tudo de novo.

Algumas folhas eram tão malvadas que largavam pequenos pedacinhos da sua fina espessura, nos locais mais apertados daquele amontoado de rolos que imobilizavam a máquina por vários dias, até que um técnico credenciado conseguisse remover aqueles destroços revoltosos de dentro da máquina.

O que faria eu ali sozinha, fora da resma e fora de uma impressora, como quem diz fora do baralho, com uma caneta em cima e um indivíduo a olhar para mim, como se eu fosse a culpada do seu sofrimento?

Fiquei ali mais a caneta, durante toda a noite, sem saber mais o que pensar e também não tinha mais nada para recordar. Ouvi bichanar, era a caneta. Pensava que as canetas só conseguiam comunicar através de terceiros, ou seja, quando alguém lhes pegava e as fazia escrever. Afinal, enganei-me, aquela caneta pensava, tal como eu, no que estava ali a fazer, uma vez que há anos que se encontrava na gaveta. A tinta, de cor azul, que enchia o cartucho de tinta permanente, havia secado na voragem do tempo em que esteve fechada. Dava dó olhar para aquele aparo desidratado e sujo com a última gota de tinta que havia transportado até uma qualquer folha.

E assim passámos a noite a pensar nas nossas vidas.

Acordámos com os primeiros raios solares a entrar pela janela, que aos poucos começaram a queimar a minha pele, super branca, o que me incomodava bastante.

Apareceu de novo o homem, sentou-se e olhou de novo para mim. Tinha o mesmo ar de sofrimento condimentado com o que parecia ter sido uma noite mal dormida ou uma ressaca, quem sabe. Percebi, do seu murmúrio, que queria escrever mas não tinha inspiração, comentando, para si mesmo que era aterrador olhar para uma folha em branco e não saber o que escrever.

Pegou-me gentilmente, depositou-me numa gaveta vazia, espaçosa e limpa, voltou a colocar a caneta em cima e fechou a gaveta. Agora em voz alta, que deixava transparecer alguma raiva, talvez para que eu ouvisse distintamente, disse que quando a inspiração voltasse pegaria de novo em mim e já não me deixaria nem virgem, nem totalmente branca.

Percebi que o meu destino estava traçado, não iria acabar numa impressora mas sim iria ser parte integrante de uma história. Isto se entretanto a caneta colaborar.

A raiva daquele homem, mas também o sofrimento demonstrado e a forma como me tratou, fez-me ter confiança de que um dia, algo de bom e de importante será depositado na minha face, o que me deixou muito tranquila, porque era minha intenção encravar uma impressora, caso me fosse impressa com uma qualquer baboseira.

Quem sabe acabarei emoldurada.

Até lá, esta história é minha, com a participação especial de uma caneta sem tinta e de um pseudo-autor que, apenas e só lamentou, que eu, folha super branca, o intimidei e lhe retirei, para já, a imaginação.

Já lá dizia o meu avô, folha de papel pardo; “Quem não sabe dançar diz que a sala está torta…”

Sendo eu uma simples folha de papel, que papel me coube?

Obviamente, o papel principal.

16
Jun21

O peão e o veículo rápido


Vagueando

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Gosto de velharias, nomeadamente livros. Há uns dias, descobri um pequeno folheto apresentado pela Companhia de Seguros Tranquilidade, companhia fundada em 1871.

O folheto tinha como objetivo alertar para os perigos das ruas e das estradas, foi lançado em 1941, o presidente do Conselho de Administração era o Dr José Ribeiro Santo Silva e a companhia apresentava os seguintes rácios financeiros: Capital e Reservas Esc. 26.000.000$00 Receita total em 1941 Esc.41.000.000$00 Sinistros pagos em 1941 Esc. 11.600.000$00.

A informação vertida na contracapa terminava com esta nota “Se os pagamentos tivessem sido igualmente divididos por todos dos dias do ano, teríamos pago diariamente 32.000$00 escudos.”

Contudo, para além destas curiosidades, gostei particularmente de um pequeno trecho onde se aborda a questão dos atropelamentos de peões, cuja descrição é tão simples e objectiva que não resisto a transcrevê-lo na integra, com ortografia usada na altura.

Podemos dividir os atropelamentos em duas espécies, a saber: os ocorridos na faixa de rolagem, isto é no espaço da rua reservada aos veículos; e aquêles que acontecem sôbre os passeio das ruas ou bermas das estradas por onde só devem transitar peões.

Ao atravessar uma rua há sempre que ter presente que nos é mais fácil ver conscientemente o veículo, que se aproxima, do que sermos vistos pelo seu condutor. Isto explica-se, porque o campo de visão do condutor se acha limitado geralmente pelo para-brisa; porque os peões são quási sempre mais numerosos do que os veículos e porque êstes últimos, maiores do que aqueles, prendem mais a atenção.

Além disso, enquanto peão tem de livrar-se de um veículo de cada vez e cujo sentido de movimento quási sempre também conhece – o condutor, por seu lado, tem de haver-se com vários peões ao mesmo tempo que podem mudar a direcção em que se movem com muito mais facilidade do que qualquer veículo.

Dêste estado de coisas provém que um condutor,p ara se desviar de um transeunte completamente distraído, pode ir, por exemplo, colher outro mais prudente que já tenha tido o cuidado de se conservar na borda do passeio.

O pavimento por onde transitam os veículos deve ser considerado por todos os peões como «terra de ninguém». Pôr os pés nas faixas de rolagem das ruas e das estradas com muito trânsito, só para as atravessar mais ràpidamente possível, depois de haver a certeza de que se não aproxima qualquer veículo.

Ora se devemos atravessar as ruas e as estradas com cautela, o mesmo se observará quando se trate da via férrea, tendo, porém, aqui sempre presente que o vento que sopra em sentido oposto ao de um comboio que se aproxima o torna silencioso – e que além disso êste não para com a facilidade de um carro eléctrico ou camião.

Nota para os mais distraídos; Entenda-se carro eléctrico como os elétricos da Carris, os amarelos, para não se confundir com os atuais carros elétricos.

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